Sexta-feira, 6 de novembro de 2026Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Saúde

MIT desenvolve implante flexível com 24 transdutores de ultrassom para espalhar remédio pelo cérebro; testes foram só em gel e em camundongos

O dispositivo LUCID visa evitar a volta do glioblastoma, tumor cerebral agressivo. O estudo, na revista Device, não traz números de eficácia nem dados em pessoas, e o medicamento usado nos testes foi um contraste de ressonância, não um quimioterápico.

Sonda de ultrassom médica com arranjo linear de transdutores
Sonda de ultrassom médica com arranjo linear de transdutores (foto de Harrison Keely, CC BY 4.0). Imagem ilustrativa; o implante LUCID é outro dispositivo, flexível e muito menor. Foto/Imagem: Harrison Keely / Wikimedia Commons, CC BY 4.0

Tratar tumores no cérebro tem um problema de logística: é difícil fazer o remédio chegar a todas as células que importam. A barreira hematoencefálica, uma proteção natural que filtra o que passa do sangue para o cérebro, bloqueia muitos fármacos, e injetar direto no tecido costuma espalhar a droga por poucos milímetros. Pesquisadores do MIT apresentaram, em artigo publicado na revista Device (Cell Press) e divulgado em 26 de outubro de 2026, um implante que combina infusão lenta e ultrassom para empurrar as moléculas mais longe. O nome é LUCID, de Long-term Ultrasound-enhanced Convective Injection Device (dispositivo de injeção convectiva de longo prazo reforçada por ultrassom, tradução do NTB).

A advertência deve vir antes da empolgação: a evidência apresentada vem de um gel que imita tecido humano e de camundongos. O texto não traz números sobre o quanto o ultrassom aumentou o alcance do remédio e não relata dados em pessoas.

O alvo: o glioblastoma

O dispositivo foi pensado para o glioblastoma, um tumor cerebral agressivo. Segundo o MIT, pouco mais de 10 mil casos são diagnosticados por ano nos Estados Unidos, e a sobrevida média é de 12 a 15 meses após o diagnóstico. A cirurgia raramente consegue retirar todo o tumor, por isso ele costuma voltar. O tratamento padrão é cirurgia, seguida de radioterapia e quimioterapia. A ideia do LUCID é ser colocado durante a própria cirurgia e depois liberar lentamente medicamentos para eliminar as células tumorais que sobraram.

Como o implante funciona

  • Formato: um implante flexível, tão fino quanto uma cartolina;
  • Agulha integrada: uma cânula de entrega de fármacos é impressa em 3D diretamente sobre um conjunto de 24 transdutores de ultrassom miniaturizados;
  • Ultrassom na ponta: os transdutores geram ultrassom junto à ponta da agulha, o que ajuda as moléculas liberadas a se difundir mais longe no tecido. As oscilações mecânicas do ultrassom também aumentam, temporariamente, a permeabilidade da barreira hematoencefálica;
  • Reservatório: cerca de 100 microlitros (um décimo de mililitro), alimentado por uma bomba osmótica passiva;
  • Controle sem fio: o ultrassom é controlado por Bluetooth, de modo que médicos possam programar as doses depois do implante;
  • Bateria: pequena, recarregável sem fio.

Em uso humano, a agulha e o conjunto de transdutores ficariam dentro do crânio, e a bateria e a eletrônica, fora dele. O texto não informa o consumo de energia nem as dimensões exatas.

O que foi testado

  • Gel que imita tecido: com o ultrassom, as moléculas se espalharam muito mais longe do que sem ele;
  • Camundongos: com o conjunto ativo, um agente de contraste de ressonância magnética se espalhou mais pelo cérebro do que sem ultrassom.

Duas ressalvas relevantes. A substância usada nos animais foi um contraste, escolhido porque é visível no exame, e não um remédio contra o câncer; o artigo, portanto, mostra que moléculas se espalham mais, não que o tumor diminui. E o texto não informa valores, apenas que o alcance foi “maior”.

Por que combinar infusão e ultrassom

O implante usa dois mecanismos de transporte ao mesmo tempo. O primeiro é a convecção: um pequeno fluxo contínuo empurra o líquido pelo tecido, em vez de esperar que as moléculas se espalhem sozinhas por difusão, que é lenta e de curto alcance. O segundo é o ultrassom, que, segundo o MIT, cria fluxos convectivos adicionais e mexe temporariamente na barreira hematoencefálica. Juntos, eles tentariam cobrir uma área maior em volta da cavidade deixada pela cirurgia, exatamente onde ficam as células que costumam originar a recidiva. Essa explicação sobre as limitações da difusão é contexto do NTB.

A escolha de uma bomba osmótica passiva, que funciona sem motor, é outro detalhe de engenharia: reduz o gasto de energia e o número de peças que podem falhar dentro do corpo. A bateria só alimenta o ultrassom e a comunicação sem fio.

Quem fez

A autora sênior é Canan Dagdeviren, professora associada de artes e ciências da mídia no MIT. Os autores principais são Sarah Ornellas e Jason Hou. Entre os coautores estão pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts, de Harvard e da Universidade de Boston, incluindo o neurocirurgião E. Antonio Chiocca. O financiamento veio do consórcio do MIT Media Lab e dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH). Dagdeviren já havia desenvolvido outro implante de ultrassom, o ImPULS, para estimulação cerebral profunda.

Próximos passos e outras aplicações

O grupo diz que trabalha no desenvolvimento para pacientes, com o dispositivo dentro do crânio durante a cirurgia. A tecnologia, afirma, poderia entregar também medicamentos de moléculas pequenas, imunoterapias, ácidos nucleicos ou terapias gênicas, e ser usada em outros tecidos moles e órgãos. Isso é possibilidade, não resultado.

Por que o resultado importa, e por que cautela

A entrega de medicamentos ao cérebro é um dos grandes gargalos da neuro-oncologia. Mesmo fármacos que funcionam em células em laboratório falham quando não chegam ao alvo. Um implante programável e recarregável, que permite ajustar a dose depois da cirurgia sem nova operação, atacaria exatamente esse ponto. O caminho até um uso real, porém, é longo: é preciso mostrar benefício com medicamento de verdade, segurança da estrutura dentro do crânio por meses, riscos de infecção e de aquecimento do tecido, e depois ensaios em humanos. A maioria dos dispositivos que funcionam em camundongos não chega a essa fase. O NTB não tem informação de que o LUCID esteja em teste clínico, e o texto do MIT também não a dá.

Quem convive com o diagnóstico deve buscar informação com a equipe médica e em fontes como o INCA, e não tomar esta matéria como indicação de tratamento. Essa recomendação é do NTB.

Nota da redação: texto elaborado pelo NTB, com auxílio de inteligência artificial e revisão editorial, a partir da reportagem do MIT News (26/10/2026). O NTB não leu o artigo da Device. O nome do dispositivo e o título do artigo estão traduzidos pelo NTB. A explicação sobre a barreira hematoencefálica e a análise dos limites são contexto do NTB. A foto de abertura é de uma sonda de ultrassom comum e não do implante. Informações de saúde não substituem avaliação profissional.

Fontes

Foto de Antonio Fernando Azevedo Souza Neto

Antonio Fernando Azevedo Souza Neto · Founder News Tech Brazil

Engenheiro Mecânico, Cientista da Computação e Matemático | Criador e redator do News Tech Brazil | Ciência • Tecnologia • Inovação • Engenharia Antonio Fernando Azevedo Souza Neto é um profissional com interesses multidisciplinares nas áreas de Engenharia, Computação, Matemática...

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