Saúde
Biorrepositório do Hospital de Amor, em Barretos, quer criar escores de risco genético de câncer calibrados para brasileiros
O projeto tem 4.062 participantes e quase 40 mil amostras de sangue, com meta de 8 mil pessoas em dois anos. A ferramenta ainda não está pronta para uso no SUS, e a pesquisa publicada descreve a infraestrutura, não um escore finalizado.
Quase todas as ferramentas que tentam prever o risco de câncer a partir do DNA foram construídas com dados de pessoas de ascendência europeia. O Brasil, com sua mistura de origens europeias, africanas, indígenas e asiáticas, pode não se encaixar bem nelas. É a partir desse problema que um grupo do Hospital de Amor, em Barretos (SP), montou um biorrepositório, um banco de amostras biológicas ligado a dados de saúde e de estilo de vida, para desenvolver ferramentas de risco adequadas à população brasileira. A iniciativa foi descrita pela Agência FAPESP em 9 de outubro de 2026, com base em artigo publicado na revista iScience e financiamento da FAPESP.
O projeto é coordenado por Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do hospital. Ele é a principal voz da reportagem, e as declarações sobre a necessidade de ferramentas locais são dele.
Os números do biorrepositório
- 4.062 participantes e quase 40 mil amostras derivadas de sangue;
- meta de pelo menos 8.000 pessoas nos próximos dois anos, divididas igualmente entre pessoas com câncer e pessoas sem câncer;
- três tipos de câncer no início: mama, colorretal e colo do útero;
- o projeto aproveita o biobanco institucional do hospital, criado em 2006, que tem mais de 420 mil amostras de mais de 55 mil doadores.
O banco reúne dados genéticos, epidemiológicos e de estilo de vida de pessoas com e sem câncer. Há questionários sobre dieta, ocupação e hábitos, para que os pesquisadores possam estudar como os genes interagem com o ambiente.

O problema da representatividade
Segundo a reportagem, mais de 90% dos participantes dos grandes estudos genômicos sobre risco de câncer têm ascendência europeia. Reis argumenta que ferramentas construídas nessas populações podem não funcionar bem em brasileiros. Dados preliminares do projeto indicam que os brasileiros têm ascendências europeia, africana, indígena e asiática em misturas variadas, e que a composição genética muda entre indivíduos e entre regiões do país. A equipe vai estudar como a ancestralidade se relaciona ao risco de tumor e como ela afeta o desempenho dos escores.
O que é um escore de risco poligênico
A maioria dos cânceres não nasce de uma única alteração genética. Centenas ou milhares de pequenas variações no DNA, cada uma com efeito minúsculo, aumentam ou diminuem um pouco o risco. O escore de risco poligênico (PRS, do inglês polygenic risk score) soma o efeito combinado dessas variantes para estimar a predisposição herdada de uma pessoa. Ele é diferente dos testes para mutações hereditárias bem conhecidas, como as dos genes BRCA1 e BRCA2, que têm efeito grande e individual.
Um ponto que a reportagem destaca e que merece ênfase: um escore alto não significa que a pessoa terá câncer. Alimentação, obesidade, atividade física, tabagismo e exposições ambientais também pesam. E os escores existentes, criados em sua maioria com pessoas de ascendência europeia, precisam ser testados no Brasil antes de qualquer uso.
Por que mama, colorretal e colo do útero
Os três tumores foram escolhidos porque são importantes no Brasil e têm métodos estabelecidos de prevenção, rastreamento ou detecção precoce: mamografia, exame preventivo do colo do útero, e pesquisa de sangue oculto nas fezes ou colonoscopia. A lógica é que uma ferramenta de risco só faz sentido se existir algo a fazer com a informação: se alguém é de maior risco, é possível, por exemplo, intensificar o rastreamento.
Uso possível no SUS, e os limites
Os pesquisadores analisam milhões de variantes por participante para identificar as mais relevantes. Um teste de sangue futuro poderia usar apenas dezenas ou centenas delas. Uma pessoa com maior risco previsto de câncer colorretal poderia receber atenção redobrada a fatores de risco modificáveis e, possivelmente, uma colonoscopia mais cedo, se estudos futuros mostrarem benefício.
A reportagem é explícita nas ressalvas, e elas importam:
- a ferramenta não está pronta para uso em saúde pública: os escores ainda precisam ser definidos, testados em mais gente e validados em outros centros;
- o artigo publicado descreve a infraestrutura do biorrepositório, não um escore brasileiro finalizado;
- os resultados mais avançados, sobre o câncer colorretal, aparecerão em um outro artigo, “a ser publicado em breve”.
Um alerta ao consumidor
Reis lembra que muitos testes genéticos de risco vendidos no Brasil se baseiam em pesquisas estrangeiras e não foram validados localmente. Para quem recebe uma oferta de teste, a pergunta prática é: em que população esse escore foi construído e testado? Se a resposta for “europeia”, o resultado pode não valer para você. Essa leitura é a do pesquisador, e o NTB não avaliou nenhum produto comercial.
Próximos passos
A equipe pretende expandir o biorrepositório para os cânceres de pulmão, pâncreas e melanoma e incluir pacientes de regiões remotas por meio da rede do hospital. A expansão geográfica é importante porque a diversidade genética do país não se concentra em um único lugar.

Por que a notícia importa
Medicina de precisão costuma ser desenhada com dados dos países ricos. Quando a ciência brasileira constrói a própria base, o ganho não é só de justiça: é de eficácia, porque uma ferramenta calibrada para outra população pode errar mais. Se o projeto cumprir o prometido, o Brasil terá escores de risco aferidos em brasileiros, que poderão orientar rastreamento no SUS. Mas esse “se” é grande: o caminho entre um banco de dados e um teste usado na rotina passa por validação, custo-efetividade e decisão de política pública. A notícia de hoje é o primeiro degrau, não o topo da escada.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB, a partir da reportagem da Agência FAPESP (09/10/2026). O NTB não leu o artigo da iScience. Declarações e números são os da reportagem. A explicação sobre BRCA1/BRCA2 e a interpretação de “escore alto” são contexto do NTB, coerentes com a reportagem. Informações de saúde não substituem avaliação profissional. Este texto não recomenda nenhum teste genético comercial.
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