Sexta-feira, 9 de outubro de 2026Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Ciência

Unicamp desenvolve método “verde” que extrai cafeína e antioxidantes da casca do guaraná com solvente à base de açúcar

A semente é só 15% a 20% do peso do fruto; o resto costuma ser descartado. O extrato sai pronto para uso, sem etapa final de purificação, mas o estudo não informa rendimentos, custos nem testes em escala industrial.

Frutos de guaraná abertos mostrando sementes pretas envoltas em arilo branco
Frutos de guaraná abertos (foto de Geoff Gallice, CC BY 2.0). A semente é uma pequena parte do fruto. Foto/Imagem: Geoff Gallice from Gainesville, FL, USA / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Quando se pensa em guaraná, vem à mente o pó das sementes, usado em refrigerantes, suplementos e energéticos. Pouca gente lembra que a semente representa apenas 15% a 20% do peso do fruto fresco. Os outros 80% a 85% são a casca avermelhada e o casquilho, uma parte rígida, que em geral é descartada. Pesquisadores da Unicamp encontraram um jeito de aproveitar parte desse resíduo com um método de extração considerado mais “verde”, isto é, com solventes menos agressivos ao ambiente e à saúde. A Agência FAPESP divulgou o trabalho em 9 de outubro de 2026.

O dado de escala vem do IBGE: o Brasil produziu cerca de 2.460 toneladas de sementes de guaraná em 2025. Como a semente é uma fração pequena do fruto, isso sugere que o volume de casca e casquilho gerado é muito maior, embora a reportagem não calcule esse total e o NTB também não o faça.

Por que a casca importa

O guaraná (Paullinia cupana) é uma planta nativa da Amazônia, cultivada sobretudo no Amazonas e na Bahia, e a semente é a parte comercializada, por seu teor de cafeína, que o texto chama de guaranina. Como o processamento aproveita quase só a semente, as cascas se acumulam como resíduo. Esse resíduo, porém, ainda guarda compostos de interesse: é isso que o estudo explora. (A identificação botânica e as regiões produtoras são contexto geral do NTB, não constam da reportagem.)

A ideia de transformar resíduo em matéria-prima se encaixa no conceito de economia circular, em que sobras de uma cadeia produtiva viram insumo de outra. A dificuldade costuma estar no custo e na qualidade da extração, e é aí que a escolha do solvente pesa: solventes tóxicos exigem etapas de limpeza, equipamentos de segurança e descarte controlado, o que encarece o processo e reduz o interesse industrial.

O que foi desenvolvido

O método foi criado na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira, e descrito em artigo na revista Innovative Food Science & Emerging Technologies, em julho de 2026, com o título “Sugar-based mixtures and one-pot strategy: A greener route for bioactive compound recovery from guarana bean shells” (Misturas à base de açúcar e estratégia de “um só pote”: uma rota mais verde para recuperar compostos bioativos de cascas de guaraná, tradução do NTB). O primeiro autor é Felipe Sanchez Bragagnolo, pesquisador de pós-doutorado. Colaboraram a Universidad Politécnica de Madrid e o Instituto de Investigación en Ciencias de la Alimentación, ambos na Espanha, e a Universidad de la República, no Uruguai. O trabalho teve apoio da FAPESP por quatro auxílios.

O solvente: açúcar em vez de metanol

Os solventes convencionais para esse tipo de extração, como o metanol, são voláteis e tóxicos, e substâncias derivadas do petróleo precisam ser removidas numa etapa final. O novo solvente é uma mistura de compostos de origem natural. A reportagem não o classifica em nenhuma categoria técnica específica, e o NTB também não. Seus componentes são:

  • 1,3-propanodiol, obtido principalmente por fermentação de açúcar de milho, que atua como umectante, ajudando a manter a hidratação;
  • glicose, produto da fotossíntese das plantas, que dá viscosidade;
  • ácido cítrico, que pode vir, por exemplo, da fermentação do melaço de cana, e ajuda na estabilidade e na validade do produto.

O que se extrai

  • Guaranina, um alcaloide quimicamente idêntico à cafeína;
  • polifenóis valorizados pelas indústrias de cosméticos e de bioprodutos: catequina, epicatequina e procianidina B2.

A reportagem menciona também antioxidantes em termos gerais, sem nomear outros compostos além desses polifenóis.

A vantagem: um extrato pronto para uso

O método é de “um só pote” (one-pot), e o extrato obtido já pode ser usado sem uma etapa final de purificação para remover o solvente. Isso, segundo os pesquisadores, reduz o gasto de energia e encurta o tempo de preparo. A reportagem não traz números para essas reduções. O pesquisador sugere ainda que o solvente poderia ficar na formulação final como aditivo, o que combina com tendências de mercado, mas a reportagem não informa testes em alimentos especificamente.

Aplicações possíveis

Pelos polifenóis, o extrato interessa à indústria de cosméticos e de bioprodutos, e a reportagem o descreve como utilizável por vários setores sem purificação adicional. O trabalho se alinha à bioeconomia e ao uso da biodiversidade brasileira, já que o guaraná é nativo do Brasil. Em termos práticos, a proposta transforma um resíduo, que hoje é descarte, em matéria-prima.

O que a reportagem não informa

  • rendimentos, concentrações ou eficiência de extração;
  • a escala do trabalho (laboratório, piloto ou industrial) e qualquer dado de custo ou produção;
  • limitações ou validação em escala maior;
  • segurança do extrato com o solvente para uso em produtos de consumo.

Sem esses números, não é possível dizer se o método é vantajoso economicamente frente ao uso de solventes convencionais. A reportagem descreve esses pontos como etapas futuras: testar cascas de outras frutas, substituir a glicose por mel, experimentar outras formulações e, possivelmente, fazer testes com empresas que desenvolvam novos produtos. O pesquisador reconhece que é preciso avaliar como o método mudaria a produção e se os consumidores aceitariam os produtos resultantes.

Por que importa

O aproveitamento de resíduos agroindustriais é um dos eixos da bioeconomia, e o Brasil tem muitas cadeias com sobras abundantes. Se um solvente simples, de baixo risco e feito de ingredientes já produzidos em larga escala, funcionar em volume maior, ele poderia abrir um mercado para um material hoje descartado, e dar mais valor à cadeia produtiva de uma fruta amazônica. Mas isso depende de números que ainda não foram apresentados. A notícia é, portanto, de uma prova de conceito promissora, e não de um produto em prateleira.

Nota da redação: texto elaborado pelo NTB, a partir da reportagem da Agência FAPESP (09/10/2026). O NTB não leu o artigo da Innovative Food Science & Emerging Technologies. O título do artigo está traduzido pelo NTB. O comentário sobre o volume de casca ser maior que o de sementes é inferência aritmética do NTB a partir da proporção informada, e não foi calculado. A localização da FCA em Limeira e o parágrafo final de contexto sobre bioeconomia são do NTB.

Fontes

Foto de Antonio Fernando Azevedo Souza Neto

Antonio Fernando Azevedo Souza Neto · Founder News Tech Brazil

Engenheiro Mecânico, Cientista da Computação e Matemático | Criador e redator do News Tech Brazil | Ciência • Tecnologia • Inovação • Engenharia Antonio Fernando Azevedo Souza Neto é um profissional com interesses multidisciplinares nas áreas de Engenharia, Computação, Matemática...

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