Segunda-feira, 5 de outubro de 2026Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Saúde

Fumaça de cigarro no início da vida altera a composição do esmalte dos dentes, mostra estudo da USP em ratos

Pesquisadores da USP de Ribeirão Preto expuseram filhotes à fumaça do cigarro e viram menos fósforo, mais carbono e maior espaçamento entre os prismas do esmalte — alterações invisíveis a olho nu. Resultado vem de modelo animal e ainda não pode ser transposto automaticamente para crianças.

Rato de laboratório da linhagem Wistar
Rato de laboratório da linhagem Wistar (foto de Janet Stephens, domínio público). Imagem ilustrativa: a linhagem usada no estudo da USP não foi detalhada pela fonte. Foto/Imagem: Janet Stephens (photographer) / Wikimedia Commons, Public domain

Respirar fumaça de cigarro nos primeiros dias de vida pode deixar marcas na estrutura química do esmalte dos dentes, o tecido mais duro do corpo humano. É o que indica um estudo da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (Forp-USP), realizado com ratos e publicado em maio de 2026 na revista Calcified Tissue International. A pesquisa foi noticiada em 2 de outubro pela Agência FAPESP, em reportagem de Fernanda Bassette.

Como foi o experimento

A pesquisa foi coordenada pelo professor Francisco Wanderley Garcia de Paula-Silva, com Juliana de Lima Gonçalves, doutoranda, como primeira autora. Os cientistas usaram filhotes de rato, divididos em dois grupos. Um deles foi exposto à fumaça de cigarro duas vezes ao dia, por cinco minutos cada vez, do segundo ao 28º dia de vida; o outro, o grupo-controle, não teve contato com a fumaça. Os pesquisadores acompanharam o ganho de peso, o crescimento e o desenvolvimento dos dentes. O título do trabalho é, em tradução livre, “Impacto da fumaça passiva na biomineralização do esmalte dentário em ratos”.

O modelo animal foi escolhido porque permite controlar com precisão a dose e o período de exposição — algo que não seria possível (nem ético) em crianças. Mas também impõe limites à interpretação, como se verá adiante.

Diagrama da formação normal do dente
Diagrama da formação normal do dente, com as camadas de esmalte e dentina (ilustração de Sarrafpour e colaboradores, CC BY 4.0). Crédito: Sarrafpour B, Swain M, Li Q, Zoellner H / Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

O que os pesquisadores encontraram

Os animais expostos à fumaça ganharam menos peso que os do grupo-controle. Nos dentes, a análise mostrou três alterações principais no esmalte:

  • menos fósforo na composição;
  • mais carbono;
  • maior espaçamento entre os prismas do esmalte, as estruturas microscópicas em forma de bastão que compõem o tecido.

O esmalte é formado principalmente por hidroxiapatita, um mineral de cálcio e fósforo. Segundo os autores, a alteração do fósforo afeta a composição da hidroxiapatita e pode comprometer a resistência do esmalte ao desgaste e a fraturas. A interpretação dos pesquisadores é de que a exposição interfere nas etapas de mineralização e maturação do esmalte, e não na formação da espessura do tecido.

Há um detalhe importante: as mudanças só foram percebidas com microscopia. Sem esse recurso, não havia defeitos visíveis, e a dureza do esmalte não mostrou redução inicial. Isso significa que o efeito observado, nesta fase, é discreto e silencioso — o tipo de alteração que dificilmente seria notado em um exame comum.

Por que isso importa para a saúde bucal infantil

A fumaça de cigarro inalada por não fumantes — o chamado fumo passivo — é um risco conhecido para a saúde respiratória e cardiovascular. Os autores levantam a hipótese de que a exposição passiva possa contribuir para a hipomineralização molar-incisivo, uma condição que deixa os dentes permanentes mais porosos, sensíveis e propensos à cárie e que, segundo a reportagem, afeta cerca de uma em cada cinco crianças. Mas é preciso cautela: o estudo não estabelece uma relação de causa e efeito entre fumo passivo e esse problema em humanos, e a aplicação dos resultados a crianças permanece hipotética.

Dente com cárie
Dente com cavidade de cárie (foto de Suyash Dwivedi, CC BY-SA 4.0). Imagem ilustrativa: um esmalte menos resistente tende a ficar mais vulnerável a danos como este. Crédito: Suyash.dwivedi / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Limitações e próximos passos

Os pesquisadores reconhecem que os animais eram jovens demais para apresentar o efeito do uso do dente ao longo do tempo — mastigação, desgaste e ataques ácidos, por exemplo. Estudos em andamento ampliam a exposição para cerca de uma hora duas vezes ao dia, o que deve produzir alterações estruturais mais pronunciadas e permitir avaliar defeitos mais próximos dos que poderiam ocorrer em humanos. A relação entre a exposição à fumaça e a hipomineralização molar-incisivo em crianças ainda precisa ser investigada em estudos específicos.

Também vale lembrar o óbvio: a exposição dos filhotes foi controlada e intensa, em um período correspondente à fase de formação dos dentes. Em casas e carros com fumantes, a exposição real de uma criança varia muito em duração, intensidade e idade — e o resultado do rato não pode ser traduzido em números para pessoas.

Rato de laboratório branco
Rato de laboratório (foto de Anna Marchenkova, CC BY 4.0). Modelos animais permitem controlar a exposição, mas têm limites para extrapolar resultados a humanos. Crédito: Anna Marchenkova / Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

O que fazer, na prática

Mesmo sem estabelecer efeito em humanos, a pesquisa se soma a um conjunto amplo de evidências sobre os riscos do fumo passivo, principalmente para crianças pequenas. Evitar que bebês e crianças respirem fumaça de cigarro — em casa, no carro e em ambientes fechados — é uma das medidas mais simples de proteção. Em caso de dúvidas sobre o desenvolvimento dos dentes de uma criança, o caminho é o acompanhamento regular com um dentista ou odontopediatra, que pode identificar manchas, sensibilidade e outros sinais de alterações no esmalte.

Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir da reportagem da Agência FAPESP e do artigo científico citado; trata-se de pesquisa com animais, e as conclusões não devem ser extrapoladas diretamente para pessoas. As orientações finais são recomendações gerais de saúde pública e não substituem avaliação profissional.

Estudo científico

Artigo
Impact of secondhand smoke on the biomineralization of dental enamel in rats
Publicação
Calcified Tissue International
Instituição
Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp-USP)
Pesquisadores
Francisco Wanderley Garcia de Paula-Silva, Juliana de Lima Gonçalves

Fontes

Redação NTB · Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Conteúdo elaborado pela equipe do News Tech Brazil a partir de fontes públicas, com apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisão editorial. Todas as matérias listam suas fontes.

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