Saúde
Fumaça de cigarro no início da vida altera a composição do esmalte dos dentes, mostra estudo da USP em ratos
Pesquisadores da USP de Ribeirão Preto expuseram filhotes à fumaça do cigarro e viram menos fósforo, mais carbono e maior espaçamento entre os prismas do esmalte — alterações invisíveis a olho nu. Resultado vem de modelo animal e ainda não pode ser transposto automaticamente para crianças.
Respirar fumaça de cigarro nos primeiros dias de vida pode deixar marcas na estrutura química do esmalte dos dentes, o tecido mais duro do corpo humano. É o que indica um estudo da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (Forp-USP), realizado com ratos e publicado em maio de 2026 na revista Calcified Tissue International. A pesquisa foi noticiada em 2 de outubro pela Agência FAPESP, em reportagem de Fernanda Bassette.
Como foi o experimento
A pesquisa foi coordenada pelo professor Francisco Wanderley Garcia de Paula-Silva, com Juliana de Lima Gonçalves, doutoranda, como primeira autora. Os cientistas usaram filhotes de rato, divididos em dois grupos. Um deles foi exposto à fumaça de cigarro duas vezes ao dia, por cinco minutos cada vez, do segundo ao 28º dia de vida; o outro, o grupo-controle, não teve contato com a fumaça. Os pesquisadores acompanharam o ganho de peso, o crescimento e o desenvolvimento dos dentes. O título do trabalho é, em tradução livre, “Impacto da fumaça passiva na biomineralização do esmalte dentário em ratos”.
O modelo animal foi escolhido porque permite controlar com precisão a dose e o período de exposição — algo que não seria possível (nem ético) em crianças. Mas também impõe limites à interpretação, como se verá adiante.

O que os pesquisadores encontraram
Os animais expostos à fumaça ganharam menos peso que os do grupo-controle. Nos dentes, a análise mostrou três alterações principais no esmalte:
- menos fósforo na composição;
- mais carbono;
- maior espaçamento entre os prismas do esmalte, as estruturas microscópicas em forma de bastão que compõem o tecido.
O esmalte é formado principalmente por hidroxiapatita, um mineral de cálcio e fósforo. Segundo os autores, a alteração do fósforo afeta a composição da hidroxiapatita e pode comprometer a resistência do esmalte ao desgaste e a fraturas. A interpretação dos pesquisadores é de que a exposição interfere nas etapas de mineralização e maturação do esmalte, e não na formação da espessura do tecido.
Há um detalhe importante: as mudanças só foram percebidas com microscopia. Sem esse recurso, não havia defeitos visíveis, e a dureza do esmalte não mostrou redução inicial. Isso significa que o efeito observado, nesta fase, é discreto e silencioso — o tipo de alteração que dificilmente seria notado em um exame comum.
Por que isso importa para a saúde bucal infantil
A fumaça de cigarro inalada por não fumantes — o chamado fumo passivo — é um risco conhecido para a saúde respiratória e cardiovascular. Os autores levantam a hipótese de que a exposição passiva possa contribuir para a hipomineralização molar-incisivo, uma condição que deixa os dentes permanentes mais porosos, sensíveis e propensos à cárie e que, segundo a reportagem, afeta cerca de uma em cada cinco crianças. Mas é preciso cautela: o estudo não estabelece uma relação de causa e efeito entre fumo passivo e esse problema em humanos, e a aplicação dos resultados a crianças permanece hipotética.

Limitações e próximos passos
Os pesquisadores reconhecem que os animais eram jovens demais para apresentar o efeito do uso do dente ao longo do tempo — mastigação, desgaste e ataques ácidos, por exemplo. Estudos em andamento ampliam a exposição para cerca de uma hora duas vezes ao dia, o que deve produzir alterações estruturais mais pronunciadas e permitir avaliar defeitos mais próximos dos que poderiam ocorrer em humanos. A relação entre a exposição à fumaça e a hipomineralização molar-incisivo em crianças ainda precisa ser investigada em estudos específicos.
Também vale lembrar o óbvio: a exposição dos filhotes foi controlada e intensa, em um período correspondente à fase de formação dos dentes. Em casas e carros com fumantes, a exposição real de uma criança varia muito em duração, intensidade e idade — e o resultado do rato não pode ser traduzido em números para pessoas.

O que fazer, na prática
Mesmo sem estabelecer efeito em humanos, a pesquisa se soma a um conjunto amplo de evidências sobre os riscos do fumo passivo, principalmente para crianças pequenas. Evitar que bebês e crianças respirem fumaça de cigarro — em casa, no carro e em ambientes fechados — é uma das medidas mais simples de proteção. Em caso de dúvidas sobre o desenvolvimento dos dentes de uma criança, o caminho é o acompanhamento regular com um dentista ou odontopediatra, que pode identificar manchas, sensibilidade e outros sinais de alterações no esmalte.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir da reportagem da Agência FAPESP e do artigo científico citado; trata-se de pesquisa com animais, e as conclusões não devem ser extrapoladas diretamente para pessoas. As orientações finais são recomendações gerais de saúde pública e não substituem avaliação profissional.
Estudo científico
- Artigo
- Impact of secondhand smoke on the biomineralization of dental enamel in rats
- Publicação
- Calcified Tissue International
- Instituição
- Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp-USP)
- Pesquisadores
- Francisco Wanderley Garcia de Paula-Silva, Juliana de Lima Gonçalves
- Estudo original
- https://link.springer.com/article/10.1007/s00223-026-01542-6
Fontes
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