Ciência
Solo lunar trazido pela Chang’e-6 guarda uma “cápsula do tempo” magnética: ferro de uma forma nunca vista na Lua
Pesquisadores chineses encontraram ferro gama, fase metálica até agora desconhecida em amostras lunares naturais, em vidros de impacto do lado oculto da Lua. As partículas preservam um sinal magnético estável e podem ajudar a reconstruir o campo magnético antigo do satélite.
O solo que a sonda chinesa Chang’e-6 trouxe do lado oculto da Lua tem uma surpresa em escala nanométrica: partículas de ferro em uma forma cristalina que nunca havia sido identificada em amostras lunares naturais. O achado, publicado em 16 de setembro de 2026 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e divulgado em 3 de outubro pela Academia Chinesa de Ciências, mostra que esses grãos preservam um sinal magnético estável — uma espécie de “cápsula do tempo” do campo magnético da Lua.
Uma nova fase do ferro
O ferro metálico não é novidade na Lua: as amostras das missões Apollo já mostravam o ferro alfa (α-Fe), a forma comum à temperatura ambiente. O que a equipe liderada pelo professor Haifeng Du, do Laboratório de Campo Magnético Intenso dos Institutos de Ciências Físicas de Hefei (HFIPS), da Academia Chinesa de Ciências, identificou em dois fragmentos de vidro de impacto da Chang’e-6 foi outra coisa: o ferro gama (γ-Fe), de estrutura cúbica de face centrada. Participou do trabalho o pesquisador Long Li, também do HFIPS.
Na Terra, o ferro gama costuma ser estável apenas em temperaturas muito altas e não sobrevive à temperatura ambiente em estado puro. O estudo propõe que, na Lua, ele foi “congelado” por uma combinação de fatores: pequenas quantidades de carbono e de outros elementos, o resfriamento extremamente rápido do material fundido gerado por impactos e a proteção oferecida pela matriz de vidro que envolve as partículas.

O que significa “cápsula do tempo magnética”
Quando um material magnético esfria em presença de um campo magnético, ele pode registrar a direção e a intensidade desse campo — um fenômeno que os geofísicos chamam de paleomagnetismo. A Terra tem um campo magnético ativo, gerado pelo movimento do ferro líquido em seu núcleo (o chamado dínamo). A Lua hoje praticamente não tem campo global, mas as rochas lunares indicam que ela já teve um, em algum momento do passado. Reconstruir quando e com que intensidade esse campo existiu é uma das grandes questões da ciência lunar, porque ela se liga à história térmica e interna do satélite.
O problema é que nem todo grão magnético é confiável: muitos perdem a “memória” com o tempo ou ao serem reaquecidos. É aí que o ferro gama chama atenção. Segundo os autores, as partículas maiores de γ-Fe formaram um estado magnético estável, chamado de “vórtice único”, e mantiveram uma resposta magnética consistente quando expostas a campos externos. Para os pesquisadores, isso sugere que esses grãos funcionam como pequenos “fósseis microscópicos” do ambiente magnético em que se formaram.
Como os pesquisadores enxergaram o invisível
Estudar partículas de nanômetros — milhares de vezes mais finas que um fio de cabelo — exigiu uma bateria de técnicas. A equipe preparou as amostras com um feixe de íons focalizado, analisou-as com microscopia eletrônica de transmissão, mediu a composição química e usou a holografia eletrônica fora de eixo, método capaz de mapear campos magnéticos em escala nanométrica. A combinação permitiu ligar a estrutura cristalina de cada partícula ao seu comportamento magnético.

Do lado oculto da Lua ao laboratório
A Chang’e-6 foi a primeira missão a trazer amostras do lado oculto da Lua. Segundo os dados amplamente divulgados da missão, a sonda coletou cerca de 1,9 quilo de material na região da bacia Polo Sul–Aitken, uma das maiores e mais antigas crateras de impacto do Sistema Solar, e as entregou à Terra em junho de 2024. Desde então, equipes de vários países estudam esse material, que oferece uma janela para uma região da Lua bem diferente da explorada pela Apollo, restrita ao lado visível.
O novo estudo mostra que, mesmo em um solo aparentemente comum, pode haver minerais capazes de guardar informações raras. Os autores destacam, porém, que ainda é preciso determinar com precisão quanto essas partículas — tanto o ferro gama quanto o alfa — conseguem revelar sobre o campo magnético antigo da Lua e como ele evoluiu.
Limites e próximos passos
Como em qualquer descoberta inicial, há ressalvas. O trabalho se baseia em duas amostras de vidro de impacto, e, em resultados desse tipo, o passo seguinte costuma ser repetir a identificação em outros grãos e em outras amostras. A própria equipe afirma que pesquisas futuras serão necessárias para determinar com que fidelidade o ferro gama e o ferro alfa guardam as informações paleomagnéticas e como acompanham as mudanças do campo ao longo do tempo.
Se confirmada, a técnica pode dar aos cientistas uma ferramenta nova para ler a história magnética da Lua — e, por extensão, para entender como corpos rochosos do Sistema Solar desenvolvem e perdem seus dínamos internos.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir do comunicado da Academia Chinesa de Ciências (via ScienceDaily) e do estudo citado. Os dados sobre a massa de amostras e o local de pouso da Chang’e-6 são de conhecimento público da missão e não constam do comunicado.
Estudo científico
- Publicação
- Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 123(38)
- Instituição
- Laboratório de Campo Magnético Intenso, Institutos de Ciências Físicas de Hefei (HFIPS), Academia Chinesa de Ciências
- Pesquisadores
- Haifeng Du, Long Li
Fontes
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