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Saúde

FDA aprova atezolizumabe com quimioterapia após cirurgia no câncer de cólon estágio III com deficiência de reparo do DNA

Em estudo com 712 pacientes, a sobrevida livre de doença em três anos foi de 86,3% com imunoterapia somada à quimio, contra 76,2% só com quimio. O resultado vale para um subgrupo específico de tumores, e a aprovação é dos EUA, não do Brasil.

Peça cirúrgica de intestino grosso com adenocarcinoma no ceco
Peça cirúrgica com adenocarcinoma no ceco, parte inicial do intestino grosso (foto de Nephron). Imagem de apoio, sem relação com pacientes do estudo. Foto/Imagem: Nephron / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

A agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a FDA (Food and Drug Administration), aprovou em 8 de outubro de 2026 o uso do imunoterápico atezolizumabe (nome comercial Tecentriq), junto com quimioterapia, como tratamento após a cirurgia em pessoas com câncer de cólon em estágio III cujo tumor tem deficiência no reparo de erros do DNA, conhecida pela sigla dMMR. A decisão aparece na lista de aprovações em oncologia da própria FDA, com a data de 8/10/2026. No dia seguinte, a Alliance for Clinical Trials in Oncology, grupo de pesquisa que liderou o estudo em que a aprovação se baseia, divulgou um comunicado com os números do ensaio clínico.

É a primeira vez que um estudo mostra benefício de imunoterapia aplicada depois da cirurgia nesse grupo de pacientes, segundo o comunicado da Alliance. O texto abaixo explica o que mudou, para quem vale, o que os números dizem e o que eles ainda não dizem.

O que a FDA aprovou, em termos exatos

Pela redação da própria FDA, o atezolizumabe foi aprovado em combinação com uma fluoropirimidina e oxaliplatina (os dois tipos de quimioterapia que formam esquemas como o FOLFOX) para o tratamento adjuvante, isto é, o que vem depois da cirurgia para reduzir a chance de a doença voltar, de pacientes com câncer de cólon estágio III dMMR. A indicação vale para adultos e para crianças e adolescentes a partir de 2 anos de idade.

A mesma entrada da FDA informa a aprovação de uma segunda versão do medicamento, o atezolizumabe com hialuronidase (Tecentriq Hybreza), para adultos e para pacientes pediátricos a partir de 12 anos que pesem 40 kg ou mais, com a mesma combinação e a mesma indicação. Essa versão é administrada por via subcutânea, e não por infusão na veia. Essa explicação sobre a via de administração é contexto geral do NTB; o texto da FDA que consultamos não detalha isso.

O que significa “dMMR” e por que esse grupo importa

As células têm um sistema de revisão que corrige erros cometidos quando o DNA é copiado. Quando esse sistema não funciona, o tumor é chamado de deficiente em reparo de pareamento (mismatch repair deficient, dMMR). Esses tumores acumulam muitas mutações. Segundo o comunicado da Alliance, tumores dMMR são menos sensíveis à quimioterapia à base de fluoropirimidina, e o risco de a doença voltar continua substancial mesmo depois do tratamento padrão.

O tratamento padrão do câncer de cólon estágio III, quando o tumor já alcançou linfonodos próximos, mas não há metástase à distância, é cirurgia seguida de quimioterapia com fluoropirimidina mais oxaliplatina. O comunicado lembra que o câncer colorretal é a segunda principal causa de morte por câncer no mundo. A ideia da imunoterapia é “destravar” o sistema imune para que ele ataque as células tumorais, e tumores dMMR, por terem muitas mutações, costumam ser mais visíveis para as defesas do organismo. Essa última frase é explicação geral do NTB sobre o mecanismo, e não afirmação do comunicado.

O estudo que sustentou a decisão

A aprovação se apoia no ensaio clínico de fase III ATOMIC (código Alliance A021502; registro ClinicalTrials.gov NCT02912559). Os dados principais, segundo o comunicado da Alliance:

  • 712 participantes, recrutados nos Estados Unidos e na Alemanha, de setembro de 2017 a janeiro de 2023;
  • estudo randomizado: um grupo recebeu só a quimioterapia padrão, e o outro recebeu a quimioterapia mais atezolizumabe;
  • desfecho principal: sobrevida livre de doença (o tempo até a doença voltar ou o paciente morrer); sobrevida global e segurança foram desfechos secundários.

O resultado foi publicado em março de 2026 no The New England Journal of Medicine (Sinicrope FA e colegas, 2026;394(12):1155-66). Segundo o comunicado, acrescentar o atezolizumabe reduziu em 50% o risco de recidiva ou morte. Em três anos, a sobrevida livre de doença foi de:

  • 86,3% no grupo que recebeu quimioterapia mais atezolizumabe;
  • 76,2% no grupo que recebeu só quimioterapia.

A diferença é de cerca de 10 pontos percentuais (86,3 menos 76,2). Na prática, a leitura é que, no grupo estudado, a proporção de pessoas sem sinal de doença três anos depois foi cerca de dez pontos maior com a imunoterapia. Uma redução de 50% no risco relativo e uma diferença de 10 pontos percentuais descrevem o mesmo efeito de formas diferentes, e é útil enxergar as duas.

Lâmina de tecido de carcinoma medular do cólon corada em rosa e roxo, vista ao microscópio
Carcinoma medular do cólon visto ao microscópio, com coloração H&E (foto de Ed Uthman, CC BY 2.0). Esse subtipo é frequentemente associado a dMMR, mas a imagem é apenas ilustrativa. Crédito: Ed Uthman from Houston, TX, USA / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

O que o comunicado não informa

A leitura de um estudo exige olhar também para o que falta. O comunicado da Alliance, que é a fonte dos números acima junto com o artigo do NEJM, não informa:

  • a razão de risco (hazard ratio) exata do estudo;
  • os resultados de sobrevida global, que mostram se os pacientes de fato vivem mais; a sobrevida livre de doença é considerada um indicador substituto e não garante, sozinha, que a sobrevida total melhore;
  • os dados de segurança e efeitos colaterais, que importam muito porque a imunoterapia pode causar reações imunes em vários órgãos;
  • a data exata da aprovação (a data de 8/10/2026 vem da lista da FDA).

Quem quiser avaliar o risco e o benefício com precisão deve consultar o artigo do NEJM e a bula aprovada pela FDA. O NTB não leu o artigo completo; trabalhou com a lista da FDA e com o comunicado da Alliance.

Quem esteve por trás do estudo

O ensaio foi patrocinado pelo National Cancer Institute (NCI), o instituto de câncer do governo dos EUA, vinculado ao NIH, e conduzido pela Alliance. O presidente do estudo foi Frank A. Sinicrope, da Mayo Clinic, e a presidente do grupo é Evanthia Galanis. A Genentech (do grupo Roche) apoiou o estudo por meio de um acordo de pesquisa e desenvolvimento cooperativo com o NCI, e o grupo alemão AIO (Arbeitsgemeinschaft Internistische Onkologie, associação alemã de oncologia clínica) participou como parceiro. Como o comunicado foi emitido pelo próprio grupo que fez o estudo, ele inclui linguagem de celebração, como a descrição da aprovação como um “marco”. Os números, porém, são os mesmos publicados em revista científica avaliada por pares.

E o Brasil?

Uma aprovação da FDA vale nos Estados Unidos. No Brasil, a análise cabe à Anvisa, e a incorporação ao SUS depende ainda de avaliação da Conitec. O NTB não verificou se o atezolizumabe já tem registro da Anvisa para essa indicação específica, e portanto não é possível afirmar que o tratamento esteja disponível no país. A decisão sobre qualquer tratamento deve ser tomada com a equipe de oncologia que acompanha o paciente.

Para o leitor comum, o recado prático é outro: o resultado reforça a importância de o laudo do tumor informar o status de reparo do DNA (dMMR ou proficiente), pois é ele que separa os pacientes que se beneficiam dessa estratégia. Em alguns casos, a deficiência de reparo tem origem hereditária, como na síndrome de Lynch, e isso pode ter implicações para familiares. Essa observação é contexto geral do NTB; ela não consta dos documentos consultados.

Por que a notícia é relevante

O câncer de cólon é um dos tumores mais comuns e, no estágio III, a recidiva é a grande preocupação depois da cirurgia. Durante anos, o esquema padrão de quimioterapia mudou pouco. O ATOMIC mostra que, para um subgrupo identificável por exame de laboratório, somar imunoterapia ao tratamento já usado aumentou de forma importante a fração de pacientes sem recidiva em três anos. É também um exemplo de medicina de precisão: o benefício aparece quando o tratamento é escolhido pelas características moleculares do tumor, e não só pelo estágio.

O assunto se conecta a outras matérias do NTB sobre o câncer colorretal, como o estudo apresentado em congresso de pediatria dos EUA sobre diagnóstico tardio em pacientes jovens, e à pesquisa brasileira do Hospital de Amor sobre risco genético, publicada hoje no portal.

Nota da redação: texto elaborado pelo NTB,a partir da lista de aprovações da FDA (entrada de 08/10/2026) e do comunicado da Alliance for Clinical Trials in Oncology (09/10/2026, via EurekAlert!). Os números do estudo (712 participantes, 86,3% e 76,2%, redução de 50% no risco) são os do comunicado, que cita o artigo do NEJM de março de 2026; o NTB não leu o artigo completo. Os trechos de explicação geral sobre dMMR, imunoterapia, via de administração e síndrome de Lynch são contexto do NTB, não afirmações das fontes. Termos em inglês foram traduzidos pelo NTB, com a expressão original entre parênteses quando útil. Esta matéria não substitui orientação médica.

Fontes

Foto de Antonio Fernando Azevedo Souza Neto

Antonio Fernando Azevedo Souza Neto · Founder News Tech Brazil

Engenheiro Mecânico, Cientista da Computação e Matemático | Criador e redator do News Tech Brazil | Ciência • Tecnologia • Inovação • Engenharia Antonio Fernando Azevedo Souza Neto é um profissional com interesses multidisciplinares nas áreas de Engenharia, Computação, Matemática...

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