Segunda-feira, 5 de outubro de 2026Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Saúde

Implante coclear 100% interno chega ao mercado europeu: o TICI Unico, da Med-El, permite ouvir 24 horas por dia — até dormindo e nadando

Primeiro implante totalmente implantável vendido comercialmente, o dispositivo de 20 gramas leva microfone e bateria sob a pele; recarrega em cerca de uma hora e meia e ainda não tem aprovação nos Estados Unidos.

Componentes de um implante coclear convencional da Med-El: implante interno, bobina, processador de áudio e controle remoto
Componentes de um implante coclear convencional da Med-El: unidade implantada, bobina, processador externo atrás da orelha e controle remoto. O TICI Unico elimina as peças externas (foto de Thomas Haslwanter, CC BY-SA 4.0). Foto/Imagem: Thomas.haslwanter / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Pela primeira vez, um implante coclear sem nenhuma peça externa está disponível comercialmente. A empresa austríaca Med-El lançou, em 29 de setembro de 2026, o TICI Unico (sigla em inglês para implante coclear totalmente implantável), cujo microfone, circuitos eletrônicos e bateria recarregável ficam todos sob a pele. Para quem tem perda auditiva severa a profunda, a promessa é de ouvir de forma contínua, 24 horas por dia, sem processador de áudio atrás da orelha — inclusive durante o sono, o banho e a natação.

Como um implante coclear convencional funciona

Um implante coclear não amplifica o som como um aparelho auditivo: ele contorna a parte danificada da orelha interna e estimula diretamente o nervo auditivo com impulsos elétricos. Nos modelos tradicionais, uma parte do sistema é cirúrgica — a unidade implantada, com um fio de eletrodos inserido na cóclea — e outra fica do lado de fora: um processador de áudio, normalmente preso atrás da orelha, que capta o som, o converte em sinal digital e o envia por uma bobina magnética até a parte interna. Esse processador precisa ser retirado para tomar banho ou nadar, e, quando não está no ouvido, o usuário volta a ficar sem ouvir.

Diagrama de um implante coclear, com as partes interna e externa
Esquema de um implante coclear convencional, com a parte externa (microfone e processador) e a interna (receptor e eletrodos na cóclea) — o TICI Unico elimina as peças externas (ilustração de BruceBlaus, CC BY 3.0). Crédito: BruceBlaus / Wikimedia Commons, CC BY 3.0.

O que muda no TICI Unico

No novo dispositivo, tudo fica debaixo da pele. O conjunto pesa cerca de 20 gramas e reúne um microfone subcutâneo — do tamanho aproximado de uma moeda pequena —, uma unidade estimuladora, uma bateria de íons de lítio recarregável, uma bobina para transmissão de dados e recarga e o cabo com os eletrodos que vão à cóclea. O microfone fica posicionado acima e atrás da orelha, sob cerca de 6 milímetros de pele. A recarga é feita com um acessório externo chamado GoPod, do tamanho de uma chave de carro, que se prende magneticamente à cabeça; o implante continua funcionando durante o carregamento.

Segundo as informações divulgadas, a bateria dura até 40 horas por carga e leva de uma hora a uma hora e meia para recarregar; a empresa projeta uso de pelo menos 24 horas por carga por no mínimo 15 anos. O dispositivo é compatível com ressonância magnética em condições específicas, nos campos de 1,5 e 3 teslas, e mantém compatibilidade com processadores externos da Med-El — uma saída caso o usuário queira ou precise voltar ao formato tradicional. Há um canal de bobina telefônica (telecoil) para conectar acessórios, mas não há transmissão direta por Bluetooth.

O grande desafio: captar o som através da pele

O ponto mais difícil de engenharia era o microfone. Em um implante convencional, o microfone fica no ar, no processador externo; aqui, o som precisa atravessar a pele e o tecido para ser captado, e isso muda o sinal. Gerhard Mark, gerente de pesquisa clínica da Med-El e líder do projeto, afirma que o som se comporta de forma diferente ao passar pelo tecido e que chegar ao desempenho necessário exigiu anos de pesquisa, testes e refinamento. A empresa desenvolveu um microfone específico para esse fim, cujos detalhes de projeto não foram divulgados.

Ingeborg Hochmair, cofundadora e presidente-executiva da Med-El, que desenvolveu os primeiros implantes cocleares multicanal na década de 1970 ao lado do marido, Erwin Hochmair, lembra que o sonho de um dispositivo assim existia desde o começo e parecia impossível na época.

O que os estudos mostram

Um estudo de viabilidade com seis pacientes, liderado por Philippe Lefebvre, chefe de otorrinolaringologia do Hospital Universitário de Liège, na Bélgica, foi publicado na revista Communications Medicine. Segundo a Med-El, cerca de 40 pessoas participavam dos estudos clínicos até o evento de lançamento, com desempenho comparável ao dos implantes convencionais da empresa em testes padronizados de compreensão da fala, em ambiente silencioso e com ruído. Houve também melhorias em desempenho auditivo, autoestima e engajamento social no acompanhamento de 52 semanas, e alguns participantes chegaram a usar o dispositivo até 18 horas por dia. Os resultados foram submetidos a uma revista científica, e especialistas ouvidos pelos veículos que cobriram o lançamento consideram necessários estudos multicêntricos maiores.

Lefebvre diz que, de início, imaginava que a principal vantagem seria a invisibilidade, mas que o acesso contínuo ao som é o ganho mais relevante. Diana Grosser, voluntária que recebeu o implante em 2024, afirma que a mudança mais significativa é a liberdade. Fan-Gang Zeng, diretor do Centro de Pesquisa em Audição da Universidade da Califórnia em Irvine, que não tem vínculo com a empresa, saudou o lançamento de um dispositivo “há muito esperado”.

Implante coclear convencional
Implante coclear convencional, com o processador externo e a bobina (foto de Tiia Monto, CC BY-SA 3.0). O TICI Unico dispensa essas peças. Crédito: Tiia Monto / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Quem pode usar — e quais são os limites

O TICI Unico é indicado a adultos com perda auditiva neurossensorial severa a profunda que já são candidatos a um implante coclear convencional. Ele amplia as opções, em vez de substituir os sistemas existentes. O produto recebeu a marcação CE (autorização europeia) em julho e está sendo introduzido em mercados europeus, incluindo a França; nos Estados Unidos, não é aprovado, e o pedido na agência reguladora (FDA) está em andamento, sem prazo conhecido. Preços e regras de reembolso na maioria dos países ainda não foram divulgados.

Há limitações importantes. A bateria não é substituível separadamente — se precisar ser trocada, será necessária uma cirurgia de revisão —, e os componentes eletrônicos internos não podem ser atualizados com os avanços da tecnologia, ao contrário de um processador externo. A espessura da pele sobre o microfone influencia o desempenho, e os cirurgiões precisam levar em conta mudanças do tecido ao longo do tempo. Faltam ainda dados de longo prazo em populações mais amplas. A concorrente Cochlear Ltd. concluiu recentemente o recrutamento para estudos mundiais de tecnologia de audição totalmente implantável, o que indica que a disputa por esse mercado está apenas começando.

E no Brasil?

Até o momento, as informações divulgadas tratam de aprovação europeia e do processo nos Estados Unidos; não há, nas fontes consultadas pelo NTB, anúncio sobre registro na Anvisa ou disponibilidade no Brasil. Para pacientes brasileiros, o caminho normal continua sendo a avaliação em um centro de implante coclear — no SUS, há serviços credenciados — para saber qual dispositivo é mais adequado a cada caso.

Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir das reportagens citadas. Informações médicas são de caráter jornalístico e não substituem avaliação profissional. A observação sobre o SUS é contexto geral do NTB.

Estudo científico

Publicação
Communications Medicine (estudo de viabilidade)
Instituição
Med-El; Hospital Universitário de Liège (Bélgica)
Pesquisadores
Philippe Lefebvre

Fontes

Redação NTB · Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Conteúdo elaborado pela equipe do News Tech Brazil a partir de fontes públicas, com apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisão editorial. Todas as matérias listam suas fontes.

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