Espaço
Perseverance mede partículas de poeira marciana menores que 2,5 micrômetros, o tamanho que na Terra chega aos pulmões, e abre pistas para proteger futuros astronautas
Estudo na PNAS usou 1.645 dias marcianos de dados do instrumento PIXL. A poeira fina e ultrafina grudou em materiais de trajes e resistiu a anos de uso. O risco à saúde é inferido de estudos na Terra, não medido em Marte.
Quem pisar em Marte vai ter um inimigo discreto: a poeira. Na Lua, a poeira dos módulos Apollo riscou visores, degradou camadas de trajes, estragou vedações e causou sintomas parecidos com os da rinite em alguns astronautas, segundo a NASA. Em Marte, a pergunta é parecida, mas a resposta ainda era pouco conhecida: quão pequena é a poeira marciana? Agora, o rover Perseverance trouxe as primeiras medidas feitas no local de partículas finas e ultrafinas. O estudo, que a NASA anunciou em 26 de outubro de 2026 para publicação na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) em 27 de outubro, tem como autor principal Scott VanBommel, da Universidade de Washington em St. Louis, que é também cientista da missão.
Como a poeira foi medida
O instrumento usado foi o PIXL (Planetary Instrument for X-ray Lithochemistry, instrumento planetário de litoquímica por raios X), instalado no braço robótico do Perseverance. A NASA explica que o rover carrega, como alvos de calibração, materiais usados em trajes espaciais:
- o alvo do PIXL tem Teflon e vidro basáltico;
- o alvo do instrumento SHERLOC tem Teflon e Vectran (fibras de alta resistência usadas em trajes), além de cinco amostras de materiais de trajes, cada uma de 20 mm de lado.
Como o Teflon não tem elementos que o PIXL consiga detectar, qualquer sinal medido sobre ele vem da poeira pousada na superfície. É esse o truque: usar um material “invisível” para o instrumento como tela para a poeira. O estudo cobre 1.645 dias marcianos de medições.

Do que a poeira é feita, e de que tamanho
Medidas anteriores em Marte alcançavam partículas de cerca de 3 micrômetros. O PIXL detectou:
- partículas finas, menores que 2,5 micrômetros;
- partículas ultrafinas, de cerca de 100 nanômetros.
Para ter noção da escala, um fio de cabelo humano tem cerca de 70 micrômetros de largura. No alvo de Teflon do PIXL e no Vectran do SHERLOC, as partículas tinham em média cerca de 2 micrômetros; no vidro basáltico e no Teflon do SHERLOC, os tamanhos chegavam a 100 a 300 nanômetros. Quimicamente, a poeira é igual à já medida antes, rica em ferro e enxofre. O PIXL encontrou ainda enriquecimento em fósforo e sinais de sulfato de cálcio.
A poeira gruda, e a eletricidade estática ajuda
Segundo a NASA, a eletricidade estática parece determinar quais tamanhos de partícula ficam em quais superfícies. As partículas mais finas permaneceram aderidas por anos de movimento e perfurações do rover. Além disso, alguns materiais retêm menos poeira que outros, informação que pode orientar a escolha de materiais e de revestimentos protetores para trajes. A agência também cita suitports (portas acopladas ao traje, que permitem entrar e sair sem levar a poeira para dentro) e eclusas de duas câmaras como formas de reduzir a poeira que entra nos habitats.
Por que o tamanho importa para a saúde
Na Terra, partículas menores que 2,5 micrômetros (o chamado material particulado fino) estão associadas a efeitos negativos à saúde porque penetram fundo nos pulmões e podem chegar à corrente sanguínea. Estudos mostram que partículas ultrafinas podem seguir do nariz até o cérebro pelo nervo olfativo. A poeira de Marte é feita sobretudo de minerais silicatados, mas contém percloratos, que podem perturbar a tireoide, e ferro reativo, capaz de danificar células. Os cientistas acreditam que o risco depende da quantidade de poeira e do tempo de exposição. VanBommel afirma que as menores partículas são as que “colocam o maior desafio” para os sistemas de suporte à vida humana (tradução do NTB).
O que foi medido e o que é inferência
É importante separar as camadas do resultado. O que o PIXL mediu foi a presença e o tamanho das partículas, e é a primeira vez que isso é feito no local, em Marte. O que não foi medido é o dano à saúde: os riscos descritos vêm de estudos de poluição na Terra e de raciocínio geral, e a própria NASA os apresenta como informação para esforços futuros, não como decisões de projeto. Outro cuidado: o sinal no Teflon é inferido da poeira que repousa sobre ele, já que o material em si é invisível ao instrumento.
O que isso muda para a exploração
A NASA diz que os dados podem informar o projeto de trajes e habitats, os procedimentos de remoção de poeira, os limites de exposição em ambientes internos e os padrões de saúde da tripulação em futuras missões a Marte. Na Lua, a agência já testou, em março de 2025, um escudo eletrodinâmico de poeira a bordo do módulo Blue Ghost 1, da Firefly Aerospace, que usa campos elétricos para limpar superfícies, e o Centro Espacial Johnson mantém uma instalação para testar componentes de trajes e uma ferramenta manual de remoção de poeira antes das missões Artemis à superfície.
Há uma lição de engenharia aqui: a poeira não é só um problema de saúde, é um problema de projeto de materiais, de vedação e de procedimentos. Quem desenha um traje para Marte precisa pensar em como a poeira de 100 nanômetros se comporta numa dobra, num zíper ou numa junta, e o resultado do Perseverance dá pela primeira vez dados reais para isso. Também mostra o valor de usar peças de calibração, que existem para outro fim, como laboratório involuntário: o Teflon e o Vectran do rover viraram experimento de longa duração a custo marginal.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB, com auxílio de inteligência artificial e revisão editorial, a partir do comunicado da NASA/JPL de 26/10/2026 sobre estudo da PNAS. O NTB não leu o artigo da PNAS. A fala de VanBommel é tradução do NTB. As observações sobre o Teflon como tela e sobre a engenharia de trajes são interpretação do NTB. A foto de abertura mostra o rover, não o estudo; o alvo de calibração mostrado é de imagem de arquivo do PIXL, possivelmente de outra data de medição.
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