Espaço
NASA escolhe três instrumentos para procurar cavernas, gelo e riscos na Lua antes de enviar astronautas à futura base
Um deles vai investigar se o poço de Marius Hills leva a um tubo de lava subterrâneo. Não há resultados ainda: são seleções de missões que dependem de pousos comerciais ainda por acontecer.
Antes de mandar pessoas para viver e trabalhar na Lua, a NASA quer saber onde há abrigo natural, onde há água e o que pode dar errado. Para isso, a agência espacial americana selecionou três investigações científicas do programa PRISM (Payloads and Research Investigations on the Surface of the Moon, ou Cargas e Investigações Científicas na Superfície da Lua). Elas serão levadas à superfície por módulos de pouso comerciais, contratados pela iniciativa CLPS (Commercial Lunar Payload Services, serviços comerciais de carga lunar), como parte do que a agência chama de Programa Moon Base.
O anúncio foi divulgado em 8 de outubro de 2026. Convém deixar claro desde o início: são seleções de instrumentos, não resultados de pesquisa. Nenhum desses equipamentos chegou à Lua ainda. O texto do anúncio diz que eventuais espaços subterrâneos confirmados “poderiam” oferecer vantagens, e não afirma que cavernas utilizáveis existam no local escolhido.
Nicky Fox, administradora associada da Diretoria de Missões Científicas da NASA, descreveu o objetivo como garantir que as tripulações tenham as informações de que precisam para “sobreviver à noite na Lua” (tradução do NTB). A noite lunar dura cerca de duas semanas terrestres, com temperaturas extremamente baixas; esse dado de contexto é do NTB.
1. LEMS-SP: uma estação para ouvir a Lua
O LEMS-SP (Lunar Environment Monitoring Station, South Pole, ou Estação de Monitoramento do Ambiente Lunar, Polo Sul) é uma estação autônoma que vai monitorar as condições locais por um período prolongado. O responsável é o Dr. Mehdi Benna, da Universidade de Maryland, Condado de Baltimore (UMBC). Ela vai medir:
- impactos de micrometeoritos, uma preocupação porque a atmosfera finíssima da Lua não queima os detritos que chegam;
- compostos voláteis (substâncias que viram gás com facilidade) na camada rarefeita de gás que envolve a superfície;
- vibrações e terremotos lunares, com um sismômetro de período curto.
Com os dados, engenheiros poderão projetar estruturas e equipamentos mais seguros.
2. GIMLI: o que há embaixo do poço de Marius Hills
O GIMLI (Geophysical Instruments for Marius Lunar pit Investigation, ou Instrumentos Geofísicos para Investigação do Poço Lunar de Marius) é liderado pelo Dr. Nathaniel Putzig, do Planetary Science Institute. O alvo é o poço de Marius Hills, uma abertura na superfície que pode estar ligada a um grande tubo de lava subterrâneo. O instrumento fará medições geofísicas para investigar o que existe sob o poço e se ele se conecta a uma passagem maior. Reportagens associadas descrevem as ferramentas como radar, sensores sísmicos, medições de gravidade e câmeras; o texto principal do anúncio não detalha isso.
Tubos de lava surgem quando a superfície de um fluxo de lava endurece enquanto a rocha derretida continua escorrendo por baixo. Quando a lava escoa, sobra um túnel oco. Na Lua, esses túneis poderiam oferecer temperaturas mais estáveis e proteção contra radiação e micrometeoritos, o que influenciaria onde e como construir habitats. O estudo também ajudaria a entender o vulcanismo lunar.

3. DISCO: o primeiro olhar direto para o gelo
O DISCO (Depth Imager with Spectral and Color Optics, ou Gerador de Imagens de Profundidade com Óptica Espectral e de Cor) é liderado pela Dra. Ariel Deutsch, do Centro de Pesquisas Ames da NASA, no Vale do Silício, Califórnia. O alvo é o gelo de água em micro-armadilhas frias: pequenas áreas tão frias, por receberem pouca ou nenhuma luz solar direta, que o gelo se mantém por muito tempo. Os objetivos descritos são:
- fazer as primeiras medições diretas na superfície desse gelo: onde está, quanto existe e como se distribui;
- avaliar se o gelo pode virar recurso prático. Levar água da Terra é caro; o gelo local poderia ser processado em oxigênio e hidrogênio;
- estudar os efeitos do pouso, já que o jato dos motores pode arremessar poeira e material solto;
- medir a estabilidade do terreno para a movimentação segura de astronautas, robôs e equipamentos.
Ainda não se sabe o que o DISCO encontrará. Ele foi projetado justamente para fazer as primeiras medições desse tipo.
Como isso se encaixa no plano da NASA
O texto diz que os achados darão suporte ao programa Artemis e à Moon Base e, no futuro, ajudarão no envio de humanos a Marte. A NASA afirma que pretende aumentar a frequência de missões à Lua e trabalhar com empresas americanas pela CLPS. Chamadas laterais da página mencionam quatro pousos comerciais previstos para o fim de 2028, cada um levando o mesmo trio de instrumentos, e mais de 20 pousos até 2029; porém, o corpo do anúncio não traz datas de lançamento, locais de pouso por instrumento nem cronograma operacional, e o NTB não conseguiu confirmar esses números em outra fonte oficial. Trate-os como informação não verificada.
Há um detalhe a observar: a legenda de imagem da página situa a base lunar planejada perto do polo sul, mas o texto não diz se o poço de Marius Hills, de onde virão os dados do GIMLI, fica perto desse local. Marius Hills está em outra região da Lua (conhecimento geral do NTB); portanto, as conclusões sobre tubos de lava não se aplicam automaticamente ao polo sul.
Por que cavernas e gelo importam tanto
Uma base lunar enfrenta três problemas simultâneos: radiação, porque a Lua não tem campo magnético global nem atmosfera espessa; variação térmica brutal entre dia e noite; e logística, pois cada quilo enviado da Terra custa muito. Cavernas naturais poderiam resolver parte dos dois primeiros, e o gelo, parte do terceiro, fornecendo água para beber, oxigênio para respirar e hidrogênio para combustível. Por isso a NASA investe em reconhecimento antes de qualquer construção. A estratégia lembra a de uma expedição na Terra: primeiro se mapeia o terreno, depois se monta o acampamento. A razão é prática: errar o local de uma base pode inutilizar anos de trabalho.
Para o público brasileiro, vale registrar que o interesse científico e comercial pela Lua tem crescido, e que o país assinou os Acordos Artemis em 2021. Essa informação é conhecimento geral do NTB e não consta do anúncio.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB, a partir do material da NASA reproduzido pelo ScienceDaily em 08/10/2026. O NTB não acessou o comunicado original no site da NASA. A fala de Nicky Fox está traduzida pelo NTB. Os números de pousos (quatro em 2028; mais de 20 até 2029) vêm de chamadas laterais da página, não do texto principal, e não foram confirmados. Termos em inglês foram traduzidos pelo NTB com a sigla original. Parágrafos sobre noite lunar, localização de Marius Hills, radiação, logística e Acordos Artemis são contexto geral do NTB. Nenhum resultado científico foi anunciado.
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