Saúde
Startup de Ribeirão Preto desenvolve biossensor que detecta sinais de câncer em uma gota de sangue; teste custaria de US$ 40 a US$ 50, mas ainda não foi validado
A Diasci, com apoio da FAPESP e parceria com o Icesp, mira inicialmente câncer de pâncreas, cérebro e pulmão. A tecnologia está em validação pré-clínica; os testes devem terminar em meados de 2027, e ainda é preciso aprovação da Anvisa.
Imagine detectar sinais de um tumor com uma gota de sangue, como quem mede a glicemia. É a proposta da Diasci, startup incubada no Supera Parque de Inovação e Tecnologia, em Ribeirão Preto (SP), cofundada por Daniela Fernandes e Cristiano Jayme. Com apoio do programa PIPE/FAPESP, ela desenvolve um biossensor eletroquímico que combina biópsia líquida e nanotecnologia para identificar câncer em fases iniciais. A reportagem foi publicada pela FAPESP em 6 de outubro de 2026. A tecnologia ainda não é um teste disponível nem aprovado.
Como funciona
O dispositivo se parece com um medidor portátil de glicose. Uma gota de sangue é colocada sobre um eletrodo com elementos biológicos que se ligam seletivamente a marcadores tumorais. Quando eles se encontram com a superfície sensível, ocorre uma reação de oxirredução que gera um sinal elétrico mensurável. A primeira meta são os cânceres de pâncreas, cérebro e pulmão — o de pâncreas, por exemplo, é agressivo e costuma ser descoberto tarde.
A aposta no diagnóstico precoce
Segundo a reportagem, estudos citados (incluindo trabalhos da Johns Hopkins e artigos em revistas como Nature e Journal of Clinical Oncology) indicam que marcadores tumorais podem circular no sangue de cinco a dez anos antes de as lesões aparecerem em exames de imagem. Também se estima que tratar o câncer de mama em estágio inicial custe de quatro a cinco vezes menos que em estágio avançado. O Brasil registra cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano; o de pâncreas responde por 2% dos diagnósticos e 4% das mortes.

O custo e a questão do acesso
Os desenvolvedores estimam o custo final do exame entre US$ 40 e US$ 50, incluindo o dispositivo descartável, os reagentes e o laudo. A comparação é com o PET-CT, que custa em média R$ 3.500 na rede privada (R$ 2.107,22 no SUS) e está disponível em apenas cerca de 120 equipamentos no país, concentrados em capitais do Sul e do Sudeste, o que deixa mais de 110 milhões de brasileiros sem acesso local. A empresa quer ainda nacionalizar a produção dos eletrodos, para depender menos de insumos importados (que levam cerca de 60 dias na alfândega), e imagina o teste em unidades básicas de saúde e em regiões remotas.
Em que fase está
A tecnologia está em validação pré-clínica e analítica. A equipe trabalha com o Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), com o professor Roger Chammas, da Faculdade de Medicina da USP, para ter acesso a amostras de pacientes e calibrar a sensibilidade do sensor contra diagnósticos já confirmados. A validação clínica completa exige estudos prospectivos com pacientes em hospitais, que ainda não foram feitos. A Diasci participa de um programa-piloto da Anvisa para dispositivos médicos inovadores e espera concluir os testes em meados de 2027, com entrada no mercado em até dois anos depois da aprovação. O apoio vem também do Sebrae Startups e da Finep.
O que a reportagem não diz
O texto não traz dados de acurácia — sensibilidade, especificidade ou número de amostras testadas. Sem eles, não é possível saber se o teste acerta o suficiente para ser útil. A equipe também avalia usar o sensor para monitorar pacientes em tratamento com medicamentos-alvo. Enquanto não houver validação e registro, nenhum teste desse tipo deve ser usado para diagnóstico; quem tem sintomas ou fatores de risco deve procurar um médico.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir da reportagem da FAPESP (06/10/2026). Todos os números (custos, projeções e datas) são da fonte ou dos próprios desenvolvedores. O NTB não avaliou o dispositivo. Informações de saúde não substituem avaliação profissional.
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