Energia
Brasil se aproxima do primeiro leilão de baterias: plano prevê armazenamento no Acre e ONS aponta limites de conexão em cinco estados
Com 6.091 projetos cadastrados (296,8 GW) e disputa marcada para 2 e 4 de dezembro, o setor elétrico começa a lidar com um problema novo: onde a rede aguenta receber as baterias.
O Brasil vai realizar, em dezembro, o primeiro leilão dedicado exclusivamente a sistemas de armazenamento de energia por baterias. Na última semana, duas notícias deram o tom do que está em jogo: o governo publicou o plano de outorgas de transmissão que inclui baterias no Acre, e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontou limites para conectar esses sistemas em subestações de cinco estados. Entre a ambição do mercado e a capacidade da rede, o desafio agora é localizar as baterias onde elas realmente cabem.
Baterias no Acre: o que diz o plano de transmissão
A primeira edição do Plano de Outorgas de Transmissão de Energia Elétrica de 2026 (POTEE 2026), do Ministério de Minas e Energia (MME), foi publicada no Diário Oficial da União em 1º de outubro de 2026, segundo o portal eixos. O documento reúne 45 novos projetos de expansão da transmissão em 17 estados, entre eles a implantação de sistemas de armazenamento por baterias nos municípios acreanos de Cruzeiro do Sul e Feijó, com investimento estimado em R$ 249 milhões, para aumentar a confiabilidade do suprimento. O plano também inclui duas linhas de transmissão, que somam R$ 717 milhões, e uma obra de monitoramento na linha Mogi Guaçu I – São João da Boa Vista II (SP), de R$ 2,1 milhões.
A escolha tem histórico. Feijó foi conectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN) em junho de 2023 e Cruzeiro do Sul, em dezembro de 2024 — antes, regiões do Acre dependiam de geração térmica local, em geral a diesel. A reportagem não detalha a potência e a capacidade das baterias previstas. Estudos anteriores da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), citados pela imprensa especializada, já recomendavam baterias com tecnologia grid-forming — capaz de “formar” a própria rede elétrica — para a região, com custo estimado na casa dos R$ 230 milhões.

O novo gargalo: onde ligar as baterias
Em reportagem de 1º de outubro, o eixos detalhou uma nota técnica do ONS (NT-ONS_DPL_0095-2026-R0) com um alerta: em subestações de Rio Grande do Sul, Rondônia, Bahia, Ceará e Pernambuco, a conexão de baterias terá restrições. A razão é técnica: os disjuntores nessas subestações terão sua capacidade excedida com a adição das baterias, e a substituição desses equipamentos não ocorrerá antes do início da operação dos projetos.
O contraste com o tamanho do interesse é grande. Segundo os números citados, foram cadastrados na EPE 6.091 projetos de armazenamento, somando 296,8 GW de potência. A distribuição regional é desigual: o Nordeste concentra 71,1% do total, o Sudeste 18,8%, o Sul 5,1%, o Centro-Oeste 3,4% e o Norte 1,6%. Já a margem de conexão disponível no SIN é de cerca de 56 GW; das 129 subestações “bonificadas” no desenho do leilão, 93 têm margem de capacidade reconhecida, e a margem agregada nesse conjunto é de 13,7 GW. A reportagem também cita uma projeção de déficit de potência entre 4,5 GW e 10 GW no período de 2028 a 2030 — justamente a janela em que as baterias deveriam ajudar.

Como vai funcionar o leilão
O governo organizou dois certames sequenciais. O primeiro, o LRCAP 2026 – Armazenamento Nacional, será em 2 de dezembro e é restrito a projetos que cumpram exigências de conteúdo nacional. O segundo, o LRCAP 2026 – Armazenamento, será em 4 de dezembro e admite projetos sem requisito de nacionalização. O resultado da habilitação técnica está previsto para 17 de novembro.
Os contratos terão duração de 15 anos, com início de suprimento em 1º de agosto de 2028, e a remuneração será pela disponibilidade de potência — e não pela energia efetivamente gerada —, segundo a Portaria Normativa nº 136/2026 do MME, que também prevê bonificação para localização, o chamado incentivo locacional. Segundo as regras divulgadas, os sistemas precisam ter potência mínima de 30 MW, operar por pelo menos quatro horas contínuas, ter eficiência mínima de 85%, tempo de recarga máximo de seis horas e funcionalidades de formação de rede, além de atender a requisitos técnicos da EPE e do ONS.
O que dizem os agentes do setor
Fabio Lima, diretor da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), avalia que a concorrência intensa entre muitos projetos fará com que o preço seja o fator decisivo para definir os vencedores, o que beneficiaria o consumidor. A leitura é coerente com os números do cadastro: com 6.091 projetos e 296,8 GW inscritos, há muitos concorrentes disputando espaço.
Por que as baterias importam
A expansão da energia solar e eólica no Brasil trouxe um problema novo para o sistema: nos horários de sol e vento fortes, há sobra de geração; no fim da tarde, quando o sol cai e a demanda sobe, é preciso acionar outras fontes rapidamente. Baterias podem “deslocar” essa energia no tempo, guardando-a nos momentos de excedente e devolvendo-a nos picos, além de oferecer serviços que dão estabilidade à rede. No Acre, a lógica é outra: onde a rede é longa e frágil, a bateria reforça a confiabilidade e reduz o risco de apagões.
O desafio, como mostram os dados do ONS, é que a rede também precisa estar preparada. Sem reforços nas subestações, parte dos projetos vencedores pode não conseguir se conectar no prazo. É um lembrete de que a transição energética depende não só de novas fontes e tecnologias, mas de cabos, disjuntores e planejamento.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir das reportagens citadas. Valores, datas e requisitos do leilão seguem as fontes e podem ser alterados em portarias e editais posteriores; confira os documentos oficiais antes de decisões de negócio. A explicação sobre a função das baterias no sistema é contexto do NTB.
Fontes
- Plano de Transmissão 2026 estabelece implantação de baterias no Acre
- ONS indica restrições para conexão de baterias em cinco estados
- Governo define regras para leilão de baterias no setor elétrico
- MME publica portaria do primeiro leilão de baterias do país, com divisão por conteúdo nacional e bonificação locacional
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