Segunda-feira, 5 de outubro de 2026Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Energia

Brasil se aproxima do primeiro leilão de baterias: plano prevê armazenamento no Acre e ONS aponta limites de conexão em cinco estados

Com 6.091 projetos cadastrados (296,8 GW) e disputa marcada para 2 e 4 de dezembro, o setor elétrico começa a lidar com um problema novo: onde a rede aguenta receber as baterias.

Contêineres de baterias de um sistema de armazenamento de energia
Sistema de armazenamento de energia por baterias (BESS) em Rheineck, na Suíça. Imagem ilustrativa: não é um projeto brasileiro. Foto/Imagem: Kecko from Eastern Switzerland / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

O Brasil vai realizar, em dezembro, o primeiro leilão dedicado exclusivamente a sistemas de armazenamento de energia por baterias. Na última semana, duas notícias deram o tom do que está em jogo: o governo publicou o plano de outorgas de transmissão que inclui baterias no Acre, e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontou limites para conectar esses sistemas em subestações de cinco estados. Entre a ambição do mercado e a capacidade da rede, o desafio agora é localizar as baterias onde elas realmente cabem.

Baterias no Acre: o que diz o plano de transmissão

A primeira edição do Plano de Outorgas de Transmissão de Energia Elétrica de 2026 (POTEE 2026), do Ministério de Minas e Energia (MME), foi publicada no Diário Oficial da União em 1º de outubro de 2026, segundo o portal eixos. O documento reúne 45 novos projetos de expansão da transmissão em 17 estados, entre eles a implantação de sistemas de armazenamento por baterias nos municípios acreanos de Cruzeiro do Sul e Feijó, com investimento estimado em R$ 249 milhões, para aumentar a confiabilidade do suprimento. O plano também inclui duas linhas de transmissão, que somam R$ 717 milhões, e uma obra de monitoramento na linha Mogi Guaçu I – São João da Boa Vista II (SP), de R$ 2,1 milhões.

A escolha tem histórico. Feijó foi conectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN) em junho de 2023 e Cruzeiro do Sul, em dezembro de 2024 — antes, regiões do Acre dependiam de geração térmica local, em geral a diesel. A reportagem não detalha a potência e a capacidade das baterias previstas. Estudos anteriores da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), citados pela imprensa especializada, já recomendavam baterias com tecnologia grid-forming — capaz de “formar” a própria rede elétrica — para a região, com custo estimado na casa dos R$ 230 milhões.

Centro de Cruzeiro do Sul, no Acre
Centro de Cruzeiro do Sul (AC), um dos municípios que receberão baterias no plano de transmissão (foto da Agência de Notícias do Acre, CC BY 2.0, de arquivo). Crédito: Agência de Notícias do Acre / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

O novo gargalo: onde ligar as baterias

Em reportagem de 1º de outubro, o eixos detalhou uma nota técnica do ONS (NT-ONS_DPL_0095-2026-R0) com um alerta: em subestações de Rio Grande do Sul, Rondônia, Bahia, Ceará e Pernambuco, a conexão de baterias terá restrições. A razão é técnica: os disjuntores nessas subestações terão sua capacidade excedida com a adição das baterias, e a substituição desses equipamentos não ocorrerá antes do início da operação dos projetos.

O contraste com o tamanho do interesse é grande. Segundo os números citados, foram cadastrados na EPE 6.091 projetos de armazenamento, somando 296,8 GW de potência. A distribuição regional é desigual: o Nordeste concentra 71,1% do total, o Sudeste 18,8%, o Sul 5,1%, o Centro-Oeste 3,4% e o Norte 1,6%. Já a margem de conexão disponível no SIN é de cerca de 56 GW; das 129 subestações “bonificadas” no desenho do leilão, 93 têm margem de capacidade reconhecida, e a margem agregada nesse conjunto é de 13,7 GW. A reportagem também cita uma projeção de déficit de potência entre 4,5 GW e 10 GW no período de 2028 a 2030 — justamente a janela em que as baterias deveriam ajudar.

Linha de transmissão do Linhão de Tucuruí
Linha de transmissão do Linhão Tucuruí–Macapá–Manaus (foto do Programa de Aceleração do Crescimento, CC BY 2.0, de arquivo). Imagem ilustrativa: a rede é o limite para a chegada das baterias. Crédito: Programa de Aceleração do Crescimento / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

Como vai funcionar o leilão

O governo organizou dois certames sequenciais. O primeiro, o LRCAP 2026 – Armazenamento Nacional, será em 2 de dezembro e é restrito a projetos que cumpram exigências de conteúdo nacional. O segundo, o LRCAP 2026 – Armazenamento, será em 4 de dezembro e admite projetos sem requisito de nacionalização. O resultado da habilitação técnica está previsto para 17 de novembro.

Os contratos terão duração de 15 anos, com início de suprimento em 1º de agosto de 2028, e a remuneração será pela disponibilidade de potência — e não pela energia efetivamente gerada —, segundo a Portaria Normativa nº 136/2026 do MME, que também prevê bonificação para localização, o chamado incentivo locacional. Segundo as regras divulgadas, os sistemas precisam ter potência mínima de 30 MW, operar por pelo menos quatro horas contínuas, ter eficiência mínima de 85%, tempo de recarga máximo de seis horas e funcionalidades de formação de rede, além de atender a requisitos técnicos da EPE e do ONS.

O que dizem os agentes do setor

Fabio Lima, diretor da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), avalia que a concorrência intensa entre muitos projetos fará com que o preço seja o fator decisivo para definir os vencedores, o que beneficiaria o consumidor. A leitura é coerente com os números do cadastro: com 6.091 projetos e 296,8 GW inscritos, há muitos concorrentes disputando espaço.

Por que as baterias importam

A expansão da energia solar e eólica no Brasil trouxe um problema novo para o sistema: nos horários de sol e vento fortes, há sobra de geração; no fim da tarde, quando o sol cai e a demanda sobe, é preciso acionar outras fontes rapidamente. Baterias podem “deslocar” essa energia no tempo, guardando-a nos momentos de excedente e devolvendo-a nos picos, além de oferecer serviços que dão estabilidade à rede. No Acre, a lógica é outra: onde a rede é longa e frágil, a bateria reforça a confiabilidade e reduz o risco de apagões.

O desafio, como mostram os dados do ONS, é que a rede também precisa estar preparada. Sem reforços nas subestações, parte dos projetos vencedores pode não conseguir se conectar no prazo. É um lembrete de que a transição energética depende não só de novas fontes e tecnologias, mas de cabos, disjuntores e planejamento.

Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir das reportagens citadas. Valores, datas e requisitos do leilão seguem as fontes e podem ser alterados em portarias e editais posteriores; confira os documentos oficiais antes de decisões de negócio. A explicação sobre a função das baterias no sistema é contexto do NTB.

Fontes

Redação NTB · Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Conteúdo elaborado pela equipe do News Tech Brazil a partir de fontes públicas, com apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisão editorial. Todas as matérias listam suas fontes.

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