Energia
Como Delhi reduziu as perdas de energia de 50% para cerca de 5% — e o que o Brasil pode aprender com o caso
Em 25 anos, a capital indiana trocou medidores, cabos e transformadores, passou a monitorar a rede em tempo real e a combater furtos de energia. Análise da IEEE Spectrum mostra que a tecnologia só funcionou junto com gestão, cobrança e relacionamento com os consumidores.
Em 2002, de cada dez unidades de eletricidade que entravam na rede de distribuição de Delhi, cerca de cinco simplesmente não geravam receita: eram perdidas por defeitos técnicos, por falhas de cobrança ou por furto. Em 2026, essa conta caiu para algo entre 5% e 6% — patamar próximo ao de países como França e Bélgica. A trajetória é detalhada em uma análise da revista IEEE Spectrum, assinada por Mini Shaji Thomas, professora da Universidade Jamia Millia Islamia e especialista em sistemas de potência, SCADA e redes inteligentes, e acompanhada de uma reportagem da editora de energia Emily Waltz sobre o furto de eletricidade no mundo.
O ponto de partida: uma rede sobrecarregada e cobrança frágil
Até 2002, a distribuição na capital indiana era feita por um único órgão estatal, o Delhi Vidyut Board. Naquele ano, a empresa foi dissolvida e a distribuição passou a empresas privadas: a Tata Power-DDL, no norte da cidade, e a BSES, dividida em duas distribuidoras — BSES Rajdhani Power (sul e oeste) e BSES Yamuna Power (leste). As perdas iniciais eram de 50% a 53,5% na área da Tata Power-DDL e de 51,5% a 63,1% nas áreas da BSES.
Dwijadas Basak, executivo-chefe da Tata Power-DDL, resume o que a empresa herdou: uma rede deteriorada e sobrecarregada, furto maciço de energia, sistemas fracos de faturamento e cobrança, 100 mil reclamações de cobrança sem solução e 20 mil pedidos de ligação pendentes. A reforma só foi possível porque a Lei da Eletricidade de 2003 abriu espaço legal para separar geração, transmissão e distribuição, permitir a atuação de empresas privadas, fortalecer a regulação central e criar mecanismos para processar o furto de energia.

Medir melhor para cobrar melhor
O primeiro eixo foi a medição. De acordo com a análise, as distribuidoras trocaram os medidores eletromecânicos por digitais em 2003, instalaram medidores automatizados em 2004, implantaram um sistema de análise de dados de leitura em 2006 e passaram a usar medidores inteligentes a partir de 2017. Em paralelo, ampliaram os meios de pagamento, com quiosques 24 horas e aplicativos de celular.
A abordagem social também fez diferença. As empresas contrataram mulheres de bairros de baixa renda como cobradoras (chamadas de “abhas”), ofereceram programas de educação financeira e criaram incentivos para pagamento antecipado — uma forma de transformar moradores de áreas antes vistas apenas como foco de perdas em clientes regulares.

Rede monitorada, equipamentos trocados
O segundo eixo foi a infraestrutura. Segundo a análise, as distribuidoras implantaram sistemas SCADA para monitorar e controlar a rede em tempo real, substituíram cerca de 11% dos transformadores que falhavam com frequência — reduzindo a taxa de falhas para menos de 1% —, instalaram centenas de bancos de capacitores para controlar a potência reativa, colocaram reguladores de tensão em pontos estratégicos e trocaram fios nus por cabos isolados. Em um bairro, Shalimar Bagh, foram cerca de 5 quilômetros de cabo substituído.
Para combater o furto, as equipes passaram a usar sensores de tensão presos a capacetes (também uma medida de segurança para os trabalhadores), câmeras térmicas para inspecionar equipamentos, análise de padrões de consumo com inteligência artificial — iniciativa citada pela BSES — e cooperação com as autoridades policiais.
Os números de hoje
O resultado, segundo a análise, é uma rede com índice de confiabilidade acima de 99,9% e perdas de 5% a 6%, mesmo com a demanda de pico triplicada desde 2002. O recorde de demanda da cidade foi atingido em 29 de junho de 2026, com 8.748 megawatts, superando o recorde anterior, de 8.656 MW, de 19 de junho de 2024, segundo a imprensa indiana. As três distribuidoras atenderam a ponta: a BRPL com 3.906 MW, a BYPL com 1.876 MW e a Tata Power-DDL com 2.497 MW, que foi o maior pico de sua história.
A matriz que abastece a capital é majoritariamente fóssil: 48,5% carvão, 26,5% gás natural, 15,6% hidrelétrica e cerca de 9,4% de outras renováveis, e 76% da energia é comprada de estados vizinhos.
Tecnologia sozinha não basta
O ponto mais repetido pelas fontes é que a redução de perdas não foi só uma questão de equipamentos. Abhishek Ranjan, executivo-chefe da BSES Rajdhani, afirma que a redução sustentável das perdas não acontece apenas com tecnologia: o sucesso de longo prazo vem de combiná-la com execução disciplinada, responsabilização operacional e forte engajamento dos consumidores. A reportagem de Emily Waltz acrescenta que a solução “requer um esforço conjunto de todos os envolvidos” — clientes, a distribuidora, o governo e os funcionários.
O contexto global mostra por quê. Segundo a reportagem, mais da metade dos países monitorados perdeu ao menos 10% da eletricidade em 2023; 24 nações perderam mais de 20%, e dois países perderam mais da metade do que geram. Há casos de sucesso — Singapura reduziu as perdas de 6,6% para 0,2% entre 2002 e 2023, e a Geórgia foi de mais de 16% para cerca de 8% — e de retrocesso: na Argentina, as perdas quase dobraram, de 12% (2015) para 24% (2023), com atraso na instalação de medidores inteligentes apontado como facilitador de furtos; a Jamaica convive com perdas de 21% a 28%.

Desafios que restam
Delhi não resolveu tudo. A análise aponta a recarga ilegal de e-riquixás (triciclos elétricos) como fonte de perdas localizadas elevadas, e lembra que outros estados indianos, como Himachal Pradesh, Madhya Pradesh, Maharashtra e Telangana, ainda têm perdas de 17% a 23%. O caso de Delhi também é favorecido por ser capital, com forte densidade de consumo e acompanhamento regulatório e político constante — fatores que nem todas as regiões têm.
O que isso diz ao Brasil
O Brasil também enfrenta perdas na distribuição, em especial as chamadas perdas não técnicas — ligações clandestinas (“gatos”), fraudes em medidores e inadimplência —, que acabam diluídas na conta de luz de todos os consumidores. Os números e a regulação brasileira são outros, e a comparação direta com a Índia exige cautela. Mas as lições do caso se aplicam: medir bem, tornar a rede visível por meio de monitoramento, tratar o consumidor como parceiro (e não só como fonte de perda) e combinar tecnologia com cobrança, fiscalização e gestão. É uma agenda que ganha peso à medida que a eletrificação do consumo e a geração distribuída aumentam a complexidade das redes.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir das reportagens citadas, que reúnem dados fornecidos pelas distribuidoras e por estudos do setor. A comparação com o Brasil e a ressalva sobre o contexto de capital são avaliação do NTB e não constam das fontes.
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