Segunda-feira, 5 de outubro de 2026Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Energia

Como Delhi reduziu as perdas de energia de 50% para cerca de 5% — e o que o Brasil pode aprender com o caso

Em 25 anos, a capital indiana trocou medidores, cabos e transformadores, passou a monitorar a rede em tempo real e a combater furtos de energia. Análise da IEEE Spectrum mostra que a tecnologia só funcionou junto com gestão, cobrança e relacionamento com os consumidores.

Torres de transmissão de energia elétrica em Chennai, na Índia
Torres de transmissão de energia na Índia (Chennai, 2017). Imagem ilustrativa: não mostra a rede de Delhi. Foto/Imagem: Aravindan Ganesan / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Em 2002, de cada dez unidades de eletricidade que entravam na rede de distribuição de Delhi, cerca de cinco simplesmente não geravam receita: eram perdidas por defeitos técnicos, por falhas de cobrança ou por furto. Em 2026, essa conta caiu para algo entre 5% e 6% — patamar próximo ao de países como França e Bélgica. A trajetória é detalhada em uma análise da revista IEEE Spectrum, assinada por Mini Shaji Thomas, professora da Universidade Jamia Millia Islamia e especialista em sistemas de potência, SCADA e redes inteligentes, e acompanhada de uma reportagem da editora de energia Emily Waltz sobre o furto de eletricidade no mundo.

O ponto de partida: uma rede sobrecarregada e cobrança frágil

Até 2002, a distribuição na capital indiana era feita por um único órgão estatal, o Delhi Vidyut Board. Naquele ano, a empresa foi dissolvida e a distribuição passou a empresas privadas: a Tata Power-DDL, no norte da cidade, e a BSES, dividida em duas distribuidoras — BSES Rajdhani Power (sul e oeste) e BSES Yamuna Power (leste). As perdas iniciais eram de 50% a 53,5% na área da Tata Power-DDL e de 51,5% a 63,1% nas áreas da BSES.

Dwijadas Basak, executivo-chefe da Tata Power-DDL, resume o que a empresa herdou: uma rede deteriorada e sobrecarregada, furto maciço de energia, sistemas fracos de faturamento e cobrança, 100 mil reclamações de cobrança sem solução e 20 mil pedidos de ligação pendentes. A reforma só foi possível porque a Lei da Eletricidade de 2003 abriu espaço legal para separar geração, transmissão e distribuição, permitir a atuação de empresas privadas, fortalecer a regulação central e criar mecanismos para processar o furto de energia.

Medidor eletromecânico antigo de energia elétrica
Medidor eletromecânico de energia elétrica fabricado na Índia (foto de arundpt, CC BY-SA 3.0). Imagem ilustrativa do tipo de equipamento que os programas de modernização substituíram. Crédito: arundpt / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Medir melhor para cobrar melhor

O primeiro eixo foi a medição. De acordo com a análise, as distribuidoras trocaram os medidores eletromecânicos por digitais em 2003, instalaram medidores automatizados em 2004, implantaram um sistema de análise de dados de leitura em 2006 e passaram a usar medidores inteligentes a partir de 2017. Em paralelo, ampliaram os meios de pagamento, com quiosques 24 horas e aplicativos de celular.

A abordagem social também fez diferença. As empresas contrataram mulheres de bairros de baixa renda como cobradoras (chamadas de “abhas”), ofereceram programas de educação financeira e criaram incentivos para pagamento antecipado — uma forma de transformar moradores de áreas antes vistas apenas como foco de perdas em clientes regulares.

Medidor inteligente monofásico de energia elétrica
Medidor inteligente monofásico de energia elétrica (foto de 277volts, CC BY-SA 4.0). Modelo ilustrativo: não é o utilizado em Delhi. Crédito: 277volts / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Rede monitorada, equipamentos trocados

O segundo eixo foi a infraestrutura. Segundo a análise, as distribuidoras implantaram sistemas SCADA para monitorar e controlar a rede em tempo real, substituíram cerca de 11% dos transformadores que falhavam com frequência — reduzindo a taxa de falhas para menos de 1% —, instalaram centenas de bancos de capacitores para controlar a potência reativa, colocaram reguladores de tensão em pontos estratégicos e trocaram fios nus por cabos isolados. Em um bairro, Shalimar Bagh, foram cerca de 5 quilômetros de cabo substituído.

Para combater o furto, as equipes passaram a usar sensores de tensão presos a capacetes (também uma medida de segurança para os trabalhadores), câmeras térmicas para inspecionar equipamentos, análise de padrões de consumo com inteligência artificial — iniciativa citada pela BSES — e cooperação com as autoridades policiais.

Os números de hoje

O resultado, segundo a análise, é uma rede com índice de confiabilidade acima de 99,9% e perdas de 5% a 6%, mesmo com a demanda de pico triplicada desde 2002. O recorde de demanda da cidade foi atingido em 29 de junho de 2026, com 8.748 megawatts, superando o recorde anterior, de 8.656 MW, de 19 de junho de 2024, segundo a imprensa indiana. As três distribuidoras atenderam a ponta: a BRPL com 3.906 MW, a BYPL com 1.876 MW e a Tata Power-DDL com 2.497 MW, que foi o maior pico de sua história.

A matriz que abastece a capital é majoritariamente fóssil: 48,5% carvão, 26,5% gás natural, 15,6% hidrelétrica e cerca de 9,4% de outras renováveis, e 76% da energia é comprada de estados vizinhos.

Tecnologia sozinha não basta

O ponto mais repetido pelas fontes é que a redução de perdas não foi só uma questão de equipamentos. Abhishek Ranjan, executivo-chefe da BSES Rajdhani, afirma que a redução sustentável das perdas não acontece apenas com tecnologia: o sucesso de longo prazo vem de combiná-la com execução disciplinada, responsabilização operacional e forte engajamento dos consumidores. A reportagem de Emily Waltz acrescenta que a solução “requer um esforço conjunto de todos os envolvidos” — clientes, a distribuidora, o governo e os funcionários.

O contexto global mostra por quê. Segundo a reportagem, mais da metade dos países monitorados perdeu ao menos 10% da eletricidade em 2023; 24 nações perderam mais de 20%, e dois países perderam mais da metade do que geram. Há casos de sucesso — Singapura reduziu as perdas de 6,6% para 0,2% entre 2002 e 2023, e a Geórgia foi de mais de 16% para cerca de 8% — e de retrocesso: na Argentina, as perdas quase dobraram, de 12% (2015) para 24% (2023), com atraso na instalação de medidores inteligentes apontado como facilitador de furtos; a Jamaica convive com perdas de 21% a 28%.

Linha de transmissão de alta tensão na Índia
Linha de alta tensão em Krishnapur, na Índia (foto de Kh627, CC BY-SA 3.0). Imagem ilustrativa. Crédito: Kh627 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Desafios que restam

Delhi não resolveu tudo. A análise aponta a recarga ilegal de e-riquixás (triciclos elétricos) como fonte de perdas localizadas elevadas, e lembra que outros estados indianos, como Himachal Pradesh, Madhya Pradesh, Maharashtra e Telangana, ainda têm perdas de 17% a 23%. O caso de Delhi também é favorecido por ser capital, com forte densidade de consumo e acompanhamento regulatório e político constante — fatores que nem todas as regiões têm.

O que isso diz ao Brasil

O Brasil também enfrenta perdas na distribuição, em especial as chamadas perdas não técnicas — ligações clandestinas (“gatos”), fraudes em medidores e inadimplência —, que acabam diluídas na conta de luz de todos os consumidores. Os números e a regulação brasileira são outros, e a comparação direta com a Índia exige cautela. Mas as lições do caso se aplicam: medir bem, tornar a rede visível por meio de monitoramento, tratar o consumidor como parceiro (e não só como fonte de perda) e combinar tecnologia com cobrança, fiscalização e gestão. É uma agenda que ganha peso à medida que a eletrificação do consumo e a geração distribuída aumentam a complexidade das redes.

Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir das reportagens citadas, que reúnem dados fornecidos pelas distribuidoras e por estudos do setor. A comparação com o Brasil e a ressalva sobre o contexto de capital são avaliação do NTB e não constam das fontes.

Fontes

Redação NTB · Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Conteúdo elaborado pela equipe do News Tech Brazil a partir de fontes públicas, com apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisão editorial. Todas as matérias listam suas fontes.

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