Espaço
Google lança primeiros chips de IA ao espaço para testar o sonho de data centers em órbita; o projeto Suncatcher enfrenta calor, radiação e custo
Quatro processadores foram colocados em órbita em 1º de outubro para rodar modelos Gemini em intervalos de 15 minutos. Pesquisadores ouvidos pela Scientific American veem a energia solar como vantagem e a dissipação de calor como o maior desafio.
A ideia de colocar data centers de inteligência artificial em órbita deu o primeiro passo prático. Em 1º de outubro de 2026, o Google lançou quatro processadores de IA ao espaço, a bordo de um foguete da SpaceX, no primeiro teste fora da Terra do Project Suncatcher, segundo a revista Scientific American. A Spaceflight Now, que cobriu a missão Transporter-18, também cita um protótipo de IA do Google entre as 130 cargas do voo. As fontes não ligam explicitamente os dois relatos, mas tudo indica que se trata da mesma carga.
O que será testado
Os chips vão rodar modelos de IA Gemini em intervalos de cerca de 15 minutos, seguidos de períodos de desligamento e resfriamento. O objetivo não é processar volumes enormes, e sim responder a perguntas básicas de engenharia:
- os componentes de um data center sobrevivem às condições do espaço?
- os processadores resistem à radiação? (antes do voo, o Google fez testes de feixe de prótons em solo);
- como funciona o controle de temperatura no vácuo?
- como o equipamento se comporta nas vibrações e esforços do lançamento?
Segundo Travis Beals, diretor sênior do Google, a meta é ver o que funciona e identificar pontos de falha.
Por que alguém pensaria nisso
A principal atração é a energia. Em certas órbitas, painéis solares recebem luz quase o tempo todo, sem nuvens nem noite. O pesquisador Alexander Wyglinski, do Worcester Polytechnic Institute, resume que o espaço dá acesso direto a uma fonte renovável de energia solar. Data centers na Terra consomem eletricidade em escala crescente, e a IA acelera essa demanda.

Os obstáculos
- Calor: no vácuo não há ar para levar o calor embora; é preciso usar radiadores especiais, o que adiciona massa e complexidade;
- Radiação cósmica: pode corromper cálculos e danificar chips;
- Comunicação: enviar dados do espaço à Terra continua difícil e caro;
- Escala e peso: Kerri Cahoy, do MIT, lembra que escalar o sistema exigiria painéis solares de “alguns metros de lado” para arranjos de alguns quilômetros;
- Manutenção: substituir satélites tem custo, que pode anular a economia de energia.
A visão de longo prazo
O sonho descrito é formar constelações de milhares de satélites que funcionariam, em conjunto, como data centers orbitais alimentados por luz solar abundante. Isso está muito longe do que foi lançado agora: quatro chips testando se sobrevivem. Não há, nas fontes, prazo para uma versão em escala, nem estimativa de custo.
O que observar
Os próximos meses devem mostrar se os processadores continuam operando, como a temperatura se comporta e se há erros por radiação. Resultados negativos também são úteis: apontam o que precisa mudar antes de qualquer investimento maior. Para o Brasil, a discussão importa porque a demanda de energia de data centers cresce no país, e soluções que reduzam o consumo na Terra — ou desloquem parte dele para fora — mexem com o planejamento do setor elétrico, embora ainda em horizonte distante.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir da Scientific American (01/10/2026) e da Spaceflight Now. A ligação entre as duas reportagens é inferência do NTB. O NTB não recebeu dados dos testes. As explicações sobre a energia solar em órbita e o último parágrafo são contexto e análise do NTB.
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