Sexta-feira, 9 de outubro de 2026Ciência, tecnologia, inovação e engenharia

Espaço

NASA publica o relatório científico preliminar da Artemis II: clarões de impacto, cores da Lua e um eclipse de 54 minutos

A tripulação passou cerca de sete horas nas janelas da Orion no sobrevoo lunar de 6 de abril. Os dados completos foram liberados ao público em 7 de outubro, e os resultados ainda são preliminares.

Fotografia da superfície lunar com a bacia de Orientale e crateras ao redor
Anéis da bacia de Orientale, uma das maiores crateras de impacto da Lua, fotografados pela tripulação da Artemis II (NASA, domínio público). Foto/Imagem: NASA Johnson Space Center / NASA / Wikimedia Commons, Public domain

Seis meses depois de a Artemis II ter levado quatro astronautas ao redor da Lua, a NASA abriu ao público, em 7 de outubro de 2026, o conjunto de dados científicos da viagem. O material inclui um Relatório Científico Lunar Preliminar (PDF de 137 MB), um relatório das operações de ciência lunar (37 MB), um guia para usuários dos dados (8 MB), álbum de imagens e áudios. A agência informa que as versões acessíveis dos relatórios completos, no padrão exigido pela legislação americana de acessibilidade (Seção 508), ainda estão em preparação.

O que se lê no relatório é, antes de tudo, o registro de observações feitas por olhos humanos, a cerca de 6.500 quilômetros da superfície lunar, por pessoas treinadas para descrever o que viam. É um tipo de dado que as sondas robóticas não substituem, e que ajuda a decidir como serão as próximas missões. Convém lembrar que se trata de um relatório preliminar: as análises detalhadas ainda virão.

A tripulação e o sobrevoo

A Artemis II foi tripulada por Reid Wiseman, Victor “Ike” Glover (piloto) e Christina Koch (especialista de missão), da NASA, e por Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadense (CSA). O sobrevoo lunar ocorreu em 6 de abril de 2026, no sexto dia de missão. No ponto de maior aproximação, a cápsula Orion esteve a 4.067 milhas da superfície, cerca de 6.545 km. Os astronautas passaram em torno de sete horas revezando-se nas janelas, registrando imagens, vídeos e observações faladas.

Retrato oficial da tripulação da Artemis II
A tripulação da Artemis II (NASA, domínio público): Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen. Crédito: Josh Valcarcel / Wikimedia Commons, Public domain.

Cinco clarões que ninguém esperava ver a olho nu

A observação mais curiosa do relatório são cinco clarões extremamente tênues vistos na superfície lunar, provocados por fragmentos de rocha que se chocam com a Lua. A tripulação os viu a cerca de 46.000 milhas (uns 74.000 km) de distância. A equipe científica descartou raios cósmicos e reflexos da própria nave antes de confirmar as detecções.

Os clarões ocorreram durante uma perda de comunicação planejada, quando a Orion estava atrás da Lua. Os cientistas estimam que cada rocha tinha no máximo alguns centímetros (a NASA fala em “umas poucas polegadas”). Segundo o relatório, a tripulação provavelmente viu os clarões mais fracos já registrados a olho nu. Astronautas da era Apollo viram eventos parecidos da órbita lunar. Wiseman, Glover e Hansen marcaram a posição dos clarões em uma imagem em um tablet, e três deles foram vistos cerca de 10 minutos depois do início do eclipse.

Por que isso importa? A Lua não tem atmosfera que queime os fragmentos, então eles chegam à superfície. Dados sobre a frequência dessas colisões ajudam a avaliar o risco de longo prazo para habitats e equipamentos que forem instalados lá, ponto que o relatório destaca.

As cores da Lua

A tripulação descreveu tons sutis de cinza, preto, marrom, bege, branco, verde e azul na superfície. Segundo o relatório, os tons azulados indicam rocha vulcânica rica em titânio, os marrons refletem variações no teor de ferro, e os verdes sugerem vidro formado por erupções vulcânicas ou por impactos de asteroides. Koch descreveu a cor da Lua com a expressão “jaundiced cheek of the Moon”, que se traduz como “bochecha amarelada da Lua” (a tradução é do NTB; no original em inglês, a imagem sugere a pele de alguém com icterícia).

Os astronautas foram treinados para considerar o ângulo da luz solar, que pode distorcer a cor e a textura percebidas. O relatório diz que isso será importante para missões futuras aos polos lunares. (No polo sul, o Sol fica sempre muito baixo no horizonte; essa explicação é do NTB.)

O terminador: a linha entre o dia e a noite

A luz rasante do terminador, a fronteira entre a parte iluminada e a parte escura, lembra as condições do polo sul lunar. Por isso a tripulação estudou as feições ao longo dessa linha. Glover chamou o terminador de a coisa mais impressionante que já tinha visto até então, e Koch comentou que era possível ver montanhas. O relatório menciona que crateras e picos aparecem com contornos muito nítidos, e cita a cratera Carnot, com cerca de 80 milhas de largura (uns 130 km).

Cratera Shackleton no polo sul da Lua, imagem com sombras longas
Cratera Shackleton, no polo sul lunar, vista em imagem da sonda LRO e da câmera ShadowCam (NASA, domínio público). Região-alvo de futuras missões. Crédito: LROC (Lunar Reconnaissance Orbiter) and ShadowCam teams with images provided… / Wikimedia Commons, Public domain.

Um eclipse de 54 minutos

Em dado momento, a Lua bloqueou o Sol por 54 minutos, bem mais do que dura um eclipse solar total visto da Terra. Nesse intervalo, a tripulação observou a coroa solar, incluindo uma estrutura de plasma pulsante documentada por Hansen. Também registrou Marte, Saturno, galáxias, estrelas e luz zodiacal, o brilho causado pela luz do Sol refletida em poeira interplanetária. O relatório inclui uma imagem da Via Láctea feita em 7 de abril de 2026.

Lua bloqueando o Sol, com a coroa solar visível ao redor
Eclipse solar visto pela tripulação da Artemis II (NASA, domínio público). Crédito: NASA Johnson Space Center / NASA / Wikimedia Commons, Public domain.

A Terra vista de longe

As janelas da Orion também serviram para observar o nosso planeta. A imagem “Hello, World”, feita por volta de 2 de abril de 2026, a cerca de 6.000 milhas (uns 9.700 km) de distância, depois da queima que enviou a nave rumo à Lua, foi iluminada apenas pela luz da Lua. Os cientistas identificaram nela auroras nos dois polos, uma pluma de poeira do Saara, relâmpagos sobre a bacia do Congo, luzes de cidades do norte da África e da Península Ibérica e a luz zodiacal encimada por Vênus.

A Terra se pondo atrás do horizonte lunar
“Terra se pondo” no lado oculto da Lua, fotografada pela tripulação da Artemis II (NASA, domínio público). Crédito: NASA Johnson Space Center / NASA / Wikimedia Commons, Public domain.

A bacia de Orientale

Orientale é uma das maiores crateras de impacto da Lua, formada por uma colisão antiga que deixou anéis concêntricos de montanhas. O relatório compara seis vistas da bacia. As fotos da tripulação foram casadas, com precisão, a locais de um mapa da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), que reúne dados de topografia, rugosidade, abundância de rochas (cerca de 1,33% dentro da bacia) e brilho da superfície. Combinar o olhar humano com mapas de satélite permite entender como os astronautas percebem a paisagem e o que isso diz sobre o terreno.

O que muda para as próximas missões

Segundo a NASA, as observações ajudarão a escolher câmeras, orientação delas e nível de detalhe exigido nas próximas missões do programa Artemis; os dados de clarões de impacto ajudarão a avaliar riscos de longo prazo para habitats e infraestrutura; e as lições sobre iluminação servirão para operações na superfície polar. A página consultada não menciona a Artemis III nem a base lunar de forma específica, só “missões Artemis futuras” em geral.

A equipe científica inclui Marie Henderson, vice-líder de ciência lunar. A NASA também publicou um episódio de podcast (nº 439) com os cientistas lunares Juliane Gross e Aaron Regberg e uma biblioteca de áudios da missão, além de um guia para acessar os dados pelo Sistema de Dados Planetários (PDS), o repositório público da agência.

Nota da redação: texto elaborado pelo NTB, a partir da página “Artemis II Preliminary Lunar Science Report” e do blog de lançamento dos dados, ambos da NASA (07/10/2026). O NTB não leu os PDFs completos de 137 MB, 37 MB e 8 MB: todos os números são os da página da NASA. Milhas foram convertidas em quilômetros (1 milha = 1,609 km) e “polegadas” em centímetros; valores arredondados. A fala de Koch está no original em inglês, com tradução do NTB, que não conferiu a gravação. As explicações sobre a Lua sem atmosfera e sobre Orientale são contexto geral do NTB. Resultados preliminares podem ser revistos nas análises finais.

Fontes

Foto de Antonio Fernando Azevedo Souza Neto

Antonio Fernando Azevedo Souza Neto · Founder News Tech Brazil

Engenheiro Mecânico, Cientista da Computação e Matemático | Criador e redator do News Tech Brazil | Ciência • Tecnologia • Inovação • Engenharia Antonio Fernando Azevedo Souza Neto é um profissional com interesses multidisciplinares nas áreas de Engenharia, Computação, Matemática...

Ver perfil e todas as matérias →

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.

Comentar

Deixe um comentário

Os comentários passam por moderação. Ao enviar, você concorda com a política de privacidade.

Leia também