Ciência
Quatro aminoácidos decidem a defesa do tomateiro contra a traça-do-tomateiro, mostra estudo com a Esalq-USP na Nature Communications
A enzima GAME8 controla a forma de um composto de defesa: a filotomatina, de tomate silvestre, protege mais que a α-tomatina do tomate cultivado. Pesquisadores veem como viável editar o gene para criar cultivares mais resistentes.
Uma pequena mudança em uma enzima do tomateiro pode explicar por que a planta silvestre resiste melhor à sua principal praga que o tomate cultivado. Um grupo internacional liderado por Jiancai Li, do Instituto de Fisiologia e Ecologia Vegetal de Xangai (Academia Chinesa de Ciências), com José Maurício Simões Bento, da Esalq-USP, publicou o achado na Nature Communications em 5 de outubro de 2026. A parceria nasceu de uma chamada conjunta FAPESP–NSFC de 2024.
A praga e a defesa
A praga é a traça-do-tomateiro (Phthorimaea absoluta, conhecida também como Tuta absoluta), especialista no tomate cultivado e menos danosa a variedades silvestres. As plantas do gênero Solanum (tomate, batata, berinjela) produzem glicoalcaloides esteroidais, compostos naturais que defendem contra insetos e patógenos: o tomate cultivado (Solanum lycopersicum) produz a α-tomatina, e o tomate silvestre Solanum pennellii, a filotomatina.
A descoberta: quatro aminoácidos
A enzima GAME8 participa da produção desses compostos. Os pesquisadores mostraram que quatro aminoácidos ao redor da cavidade catalítica da enzima controlam como a molécula precursora se orienta durante a síntese — o que define se o produto final terá uma configuração “R” ou “S”, ou seja, uma forma espacial diferente. Essa pequena diferença altera a estrutura tridimensional da molécula e, com ela, sua potência contra insetos.

Como foi testado
A equipe usou experimentos com plantas, testes com dietas artificiais (para isolar o efeito de cada composto), análise dos genes GAME8a e GAME8b e modelagem estrutural da molécula. A filotomatina protegeu significativamente mais contra a traça-do-tomateiro que a α-tomatina. Já contra a lagarta generalista Spodoptera litura, os dois compostos tiveram efeito semelhante — ou seja, a eficácia depende da praga, e não é uma toxicidade universal.
Melhoramento do tomate
Segundo a Agência FAPESP, do ponto de vista técnico é perfeitamente viável modificar a GAME8 para que o tomateiro acumule filotomatina. Editar os quatro aminoácidos críticos com as biotecnologias atuais poderia aumentar a resistência sem introduzir genes de outras espécies.
Limitações
- O alvo molecular do composto no inseto ainda é desconhecido;
- É preciso testar os efeitos sobre outras grandes pragas, como a mosca-branca;
- O metabolismo dos glicoalcaloides afeta qualidade, sabor e propriedades antinutricionais do fruto;
- São necessários testes extensos antes de qualquer cultivo comercial;
- As vantagens evolutivas sugeridas permanecem correlacionais, não comprovadas.
Por que importa
O tomate é uma das hortaliças mais cultivadas do país, e a traça-do-tomateiro exige muitas aplicações de inseticidas. Uma resistência natural reforçada pode reduzir o uso de agrotóxicos — mas, como mostram as limitações, o caminho entre o gene e o supermercado inclui testes de sabor, segurança e eficácia no campo.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir da notícia da Agência FAPESP (05/10/2026) sobre artigo da Nature Communications. O NTB não leu o artigo original. A afirmação sobre o uso de inseticidas é contexto geral do NTB.
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