Espaço
Sonda Juice usa a Terra como estilingue e segue rumo às luas geladas de Júpiter
Sobrevoo a 8.640 km do Oceano Índico, em 28 de setembro, desviou a trajetória em cerca de 20° e deu à nave um empurrão de 3,5 km/s — sem gastar combustível extra. Próxima parada: um último passe pela Terra em 2029 e a chegada a Júpiter em 2031.
Na tarde de 28 de setembro de 2026, a sonda Juice (Jupiter Icy Moons Explorer), da Agência Espacial Europeia (ESA), voltou a passar pela vizinhança da Terra — não para se despedir, mas para pegar impulso. No ponto de maior aproximação, às 13h45 no horário da Europa Central (11h45 em UTC, 8h45 em Brasília), a nave estava a 8.640 quilômetros de altitude, sobre o Oceano Índico. A manobra, chamada de assistência gravitacional, desviou a trajetória da sonda em cerca de 20 graus e aumentou sua velocidade em aproximadamente 3,5 quilômetros por segundo, segundo a ESA.

Por que usar a Terra como estilingue
Enviar uma nave pesada até Júpiter com combustível suficiente para frear lá, em órbita, é inviável com os foguetes disponíveis. A saída adotada pelas missões ao Sistema Solar externo é “roubar” um pouco do movimento de planetas por onde elas passam. Ao se aproximar da Terra, a nave é acelerada pelo campo gravitacional do planeta; a Terra, por ser incomparavelmente mais massiva, praticamente não sente a diferença. O resultado é uma troca de energia que muda a direção e a velocidade da sonda sem queimar propelente.
A Juice foi lançada em abril de 2023, por um foguete Ariane 5, de Kourou, na Guiana Francesa, e faz um caminho em zigue-zague de oito anos até Júpiter. Esse roteiro inclui um sobrevoo combinado da Lua e da Terra em 2024, um passe por Vênus em agosto de 2025, o sobrevoo desta semana e um último passe pela Terra, previsto para janeiro de 2029. Só então a sonda estará na trajetória certa para chegar a Júpiter, em julho de 2031.
Uma manobra de precisão — e de poucos ajustes
Um sobrevoo desse tipo exige navegação milimétrica: um erro pequeno na aproximação se transforma, depois de bilhões de quilômetros, em uma falha de rota grande. Por isso, a equipe de controle reservou seis “janelas” para eventuais correções de trajetória, programadas para quatro semanas, duas semanas, uma semana e três dias antes do encontro. A campanha de navegação começou em 17 de agosto.
Na prática, só uma correção foi necessária, a de quatro semanas antes. Angela Dietz, gerente de operações da espaçonave, descreveu-a como de tamanho relativamente pequeno, mas extremamente eficaz. Havia ainda uma última oportunidade de emergência reservada para as 8h do dia do sobrevoo (horário da Europa Central), que não precisou ser usada. A cientista-chefe do projeto, Claire Vallat, lembrou que todo sobrevoo planetário envolve risco e exige planejamento cuidadoso e monitoramento contínuo.
Houve ainda um momento delicado: entre 21h24 do dia 27 e 6h03 do dia 28 (horário da Europa Central), a Juice atravessou a sombra da Terra. Sem luz solar, a nave dependeu apenas das baterias.
Aproveitando a visita para calibrar os instrumentos
Passar perto da Terra e da Lua também serve de ensaio geral. A Juice carrega dez instrumentos científicos, e a equipe aproveitou a janela de observação — de 23 de setembro a 3 de outubro — para coletar dados do nosso planeta e do nosso satélite, comparando-os com medidas já conhecidas para calibrar os sensores. A câmera de navegação também foi testada para verificar quanto o método de navegação óptico — guiar-se pelas imagens de corpos celestes — pode melhorar a precisão. Duas câmeras de monitoramento a bordo registraram o sobrevoo, com as últimas imagens captadas em 29 de setembro.
Outro objetivo é de física espacial: a Juice passará vários dias dentro da magnetocauda da Terra, a longa “cauda” de campo magnético que se estende no lado oposto ao Sol. As medições poderão ser combinadas com as da missão Smile, uma parceria entre a Europa e a China dedicada ao estudo da interação do vento solar com o campo magnético terrestre.

O que a Juice vai procurar em Júpiter
O destino final é o sistema de Júpiter. Em vez de se concentrar no planeta, a missão foi desenhada para investigar três grandes luas geladas — Ganimedes, Calisto e Europa — que a ciência considera candidatas a abrigar, ou terem abrigado, ambientes habitáveis sob a superfície. A ESA prevê 35 sobrevoos dessas luas, além de observações detalhadas do próprio Júpiter e do ambiente de campo magnético, radiação e plasma ao redor do planeta. Em 2034, a Juice deverá entrar em órbita de Ganimedes, a maior lua do Sistema Solar — a primeira vez que uma sonda orbitará uma lua que não seja a da Terra.
Ganimedes é um mundo singular: é a única lua conhecida com campo magnético próprio e, segundo as evidências reunidas por missões anteriores, tem um oceano de água salgada sob a crosta de gelo. Europa também esconde um oceano sob o gelo e é um dos alvos prioritários da busca por vida fora da Terra. Calisto, com uma superfície antiga e muito craterizada, guarda indícios do passado do sistema. Estudar os três permite comparar como mundos parecidos evoluíram de formas diferentes.

Uma missão internacional
A Juice é liderada pela ESA, com contribuições de instrumentos e de equipes científicas de agências parceiras, entre elas a NASA, a agência espacial japonesa (JAXA) e a Agência Espacial de Israel. Os resultados deste sobrevoo ajudam a preparar o resto do cruzeiro, que ainda tem pela frente mais de quatro anos de viagem. Antes de qualquer descoberta em Júpiter, essas manobras são o teste silencioso de que a nave, a equipe e o plano de voo estão no caminho certo.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir das fontes públicas listadas ao final; datas e números seguem as fontes citadas. As informações gerais sobre as luas de Júpiter são conhecimento consolidado da ciência planetária.
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