Espaço
Telescópio Roman abre os “olhos” a caminho do L2 e já mira com precisão de um laser em uma moeda a 240 km
Lançado em 30 de agosto, o telescópio espacial da NASA concluiu os primeiros testes do sistema de orientação e do coronógrafo: a estabilidade de apontamento ficou melhor que 1/100.000 de grau, requisito para caçar planetas e medir a energia escura.
O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, da NASA, acaba de passar pelas primeiras provas de fogo depois do lançamento: com seus instrumentos ligados, ele mostrou que consegue manter o apontamento praticamente imóvel — um requisito indispensável para um observatório que vai caçar planetas e mapear o Universo em escala inédita. Segundo a agência, a estabilidade medida ficou melhor que 1/100.000 de grau, o que equivale a cerca de 0,036 segundo de arco.

Do lançamento ao ponto de Lagrange
O Roman foi lançado em 30 de agosto de 2026, às 7h26 (horário de Verão do Leste dos EUA), por um foguete Falcon Heavy, da SpaceX, a partir do Complexo 39A do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Cerca de 30 minutos depois da decolagem, o foguete soltou o telescópio em uma trajetória planejada para uma viagem de aproximadamente 30 dias até o ponto de Lagrange L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros (1 milhão de milhas) da Terra, no lado oposto ao Sol. Nessa posição, o telescópio fica em um ponto estável em relação ao sistema Terra-Sol, com baixo ruído térmico e visão desimpedida do espaço profundo.
Desde então, a equipe vem ativando o telescópio por etapas. A NASA relatou, entre os marcos recentes, a ativação dos instrumentos principais e o teste do coronógrafo (15 de setembro), a confirmação de que as estações em solo recebem os dados (25 de setembro) e, em 30 de setembro, a checagem do sistema de orientação, junto da primeira observação com o coronógrafo.
Apontar sem tremer
Observar o céu com um telescópio de 2,4 metros de espelho, como o Roman, exige mais do que boa óptica: é preciso que o instrumento fique completamente parado enquanto a luz se acumula no sensor. Qualquer vibração, mesmo minúscula, borra a imagem. O responsável por isso é o sistema de orientação fino, que usa estrelas-guia como referência: ele informa a posição dessas estrelas cerca de quatro vezes por segundo, e o telescópio se corrige continuamente.
Entre 15 e 21 de setembro, a equipe testou esse sistema com o Instrumento de Campo Amplo (Wide Field Instrument) e verificou que o apontamento permaneceu melhor que 1/100.000 de grau durante 30 minutos. Nos testes do coronógrafo, feitos em 22 e 27 de setembro, a estabilidade foi igualmente melhor que esse valor, mas mantida por 8 horas. A NASA compara o feito a mirar um laser em uma moeda de dez centavos de dólar a cerca de 240 quilômetros (150 milhas) de distância — e diz que a meta final é o equivalente a cerca de 370 quilômetros (230 milhas).
Begoña Vila, líder dos sistemas de instrumentos de orientação do Roman, no Centro de Voo Espacial Goddard (Maryland), e Vanessa Bailey, cientista do coronógrafo, no Laboratório de Propulsão a Jato (Califórnia), comentaram os resultados na divulgação da NASA.

Duas “câmeras” para duas missões
O Roman carrega dois instrumentos. O principal, o Instrumento de Campo Amplo, é uma câmera infravermelha de 300 megapixels formada por 18 detectores; seu campo de visão é de pelo menos 100 vezes o do Hubble, o que permite fotografar grandes áreas do céu de uma vez. O segundo é o coronógrafo, que bloqueia a luz de uma estrela para revelar planetas e discos de poeira muito mais fracos que ela. É uma tecnologia que a NASA quer demonstrar em órbita para preparar futuros telescópios capazes de fotografar planetas semelhantes à Terra.
As primeiras imagens de teste miraram a Grande Nuvem de Magalhães, galáxia satélite da Via Láctea. A câmera começou detectando uma estrela fraca e, depois que os detectores esfriaram até a temperatura de operação, passou a enxergar várias.

O que o Roman foi feito para descobrir
Os objetivos científicos do telescópio incluem investigar a energia escura — a misteriosa componente que acelera a expansão do Universo —, a matéria escura e a estrutura de sistemas planetários. Com seu grande campo de visão, ele fará levantamentos estatísticos de exoplanetas, inclusive os que só podem ser detectados pelo efeito de “microlente gravitacional”, quando a gravidade de uma estrela amplifica momentaneamente a luz de outra ao fundo. A missão-base tem cinco anos, e a NASA informa que a vida útil potencial dobrou, graças à economia de combustível obtida na trajetória.
O telescópio leva o nome de Nancy Grace Roman (1925–2018), a primeira astrônoma-chefe da NASA, conhecida como “mãe do Hubble” por seu papel na defesa e na organização do programa que levou ao telescópio espacial.
Próximos passos
Com o apontamento comprovado, a equipe segue com o comissionamento — a série de ativações e calibrações que prepara o observatório para as operações científicas. A NASA mantém um painel público de acompanhamento desse processo. As operações científicas deverão começar quando o telescópio concluir a verificação de todos os sistemas na órbita de operação; a agência não detalhou, nas informações divulgadas até agora, uma data para a primeira imagem científica completa.
Nota da redação: texto elaborado pelo NTB a partir das fontes públicas listadas ao final. As conversões de unidades (milhas e polegadas para o sistema métrico) são do NTB.
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